quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Passagem do Ano

Deveria escrever algo interessante e único neste último dia do ano. Algo que deixasse uma marca inesquecível. Uma mensagem positiva e inspiradora. Linhas de esperança.

No entanto, levei um tombo recente que me faz transbordar o coração de falta de esperança. Por isso, vou usar de novo as palavras da Pipoca Mais Doce, na continuação da crónica anterior.





Bom Ano de 2010 para todos!


«Décima passa: EU»


Este anovou jantar fora sozinho, pedir

só um bilhete de cinema. Vou passar um

fim-de-semana inteiro de pijama,sem lavar

os dentes antes de dormir. Vou apagar o

teu número de telefone e verter lágrimas

agarrada a um peluche. Vou cortar a franja

e pintar as unhas dos pés na mesa da

sala. Vou aprender espanhol, mandarim,

informática e cozinha do Cambodja. Vou

atravessar o restaurante para dizer que o

miúdo aos berros me tira o apetite. Vou

ver novelas às escondidas, ler romances

pop debaixo dos lençóis. Vou mandar o

bife para trás as vezes que forem precisas,

voz firme, queixo erguido. Vou dizer que não

gostei da prenda, exigir o talão de volta.

Não vou encher o mundo com as minhas

dores, bem basta as dores do mundo».


A Pipoca Mais Doce - O livro

Um belo dia de Outono, por mero acidente (como quase tudo na minha vida), conheci a Ana Garcia Martins, mais conhecida como a bloguista Pipoca Mais Doce.
Fiquei a conhecer o seu blogue e comprei o livro que, segundo a Oficina do Livro, contém «Pensamentos e segredos da rapariga mais invejada de Portugal»
Ouve crónicas que gostei assim assim, outras que gostei de caras e outras que considero que pronunciam uma futura escritora em potência.

Para hoje, e dado que a minha inspiração já teve dias melhores, deixo ficar um trecho de uma crónica que se intitula: «2009: 12 passas para ser feliz». Apesar de um ano volvido, este é o meu desejo para 2010.
«Quarta passa : Nós
Este ano (...)vamos esquecer
as paixões de 2008, de 2007, todas as que
nos espatifam o coração. Não vamos
dizer que o problema somos nós, não eles,
porque às vezes são mesmo eles. Vamos
fingir que nunca dissemos «nunca mais»
e vamos viver tudo de novo. Vamos dizer
«desculpa». Vamos esperá-la com o jantar
feito. Vamos levá-lo à bola. Vamos pedir-
-lhe a chave de casa. Vamos dizer «não
desculpo».

Impostora

Vivo uma vida que não é a minha.
Visto trajes de conveniência
E uso palavras ocas de verdade
Calco aos pés a irreverência
Que me trespassa o ser inteiro
Mordo desejos escondidos, inconfessados
E pairo na realidade inventada
Por todos os que me querem aqui
Sobrevivo aos contratempos,
Hábil fingidora do conformismo
E vou levando os meus dias
Como se não houvesse amanhã.

Serei sempre a do contra
Sem saber o que me perfaz
Na busca do âmago de mim
Vou habitando neste palco da vida
E afirmo, confesso e reitero:
Vivo uma vida que não é a minha.

06/08/2009
Poema e foto de Ana Paula Mabrouk

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Escape


Ao norte

Entre fragas

E vento agreste

Montanhas

E árvores altas

Escrevo a minha biografia

Deixo um tempo

Sem tempo

Em linhas corridas

De uma tarde de sol

Envergonhada.
02-08-2009
Poema e foto de Ana Paula Mabrouk

Dúvida

Não sei se era amor
Ou se amava o amor
Com que me amavas

Não sei se sinto a tua falta
Ou a falta de alguém
Que me faça companhia

Não sei se é preguiça
Estimar a ideia reconfortante
De que alguém pensa em nós

Não sei se é egoísmo
Ficar no seio da concha
Que nos dá guarida no perigo

Não sei se é eterna insatisfação
ou se já nasci assim
Dividida entre o que sou
E aquilo que preciso ser

Não sei onde a vida me vai levar
Às vezes nem sei quem sou
Estou aqui
Mas a minha alma está além.
Sou gente
Mas não sei se sou alguém.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Tranquilidade

Neste dias de correria infernal, em que o essencial fica muitas vezes para trás, necessitamos de calma e tranquilidade para podermos tornarmo-nos pessoas melhores. Pare, escute e olhe!

http://www.youtube.com/watch?v=g51grDVfaR4

Ainda Ricardo Agnes

«Ser poeta é criar eternidades

através de olhares infinitos

preso a outras cores»






«Até os sapos podem escrever

um poema ao fim da tarde»






«Sentes-te apertado num verso

porque escreves poemas demais»



«o céu não é um limite
mas sim um tecto falso»




«a lua não se cansa
porque não se lembra
é feliz e dança sozinha»
«Vamos estar vivos
sem pedir autorização a ninguém»

Ricardo Agnes - ...In Descontinuidades da Corpus Editora

Mais um livro que me veio parar acidentalmente às mãos. Confesso que não fiquei fã do estilo, mas retirei algumas máximas que achei interessantes. Aqui vão seis neste post e as restantes no post seguinte.



«O Medo é a sensação prévia do silêncio

o silêncio é o eco da metamorfose»






«as coisas deixam de existir

quando nos esquecemos delas»






«Não é a distância que afastas as pessoas
é a ausência»





«Tens medo de ser feliz por muito tempo
tens medo dos teus segredos
tens medo de pensar numa frase grande
que não caiba no quadro
e escrevê-la na parede
o medo de continuar a ler
depois de um ponto final»



«quero que derretas o meu coração
e o moldes numa bala
capaz de matar a tua solidão»



«esse traço negro nos teus olhos
percebo agora
são resíduos das coisas que vês
tatuagens da vida real»









































sábado, 26 de dezembro de 2009

Em Carne Viva (futura Antologia)

Concluída que está a apresentação dos trinta e três poemas que constituem a futura Antologia Em Carne Viva, resta-me fazer uma espécie de balanço. São poemas que consubstanciam uma determinada época da minha vida e uma determinada paleta de sentimentos que a ela correspondem. São essencialmente poemas virados para um passado algo longínquo, mas que teimava em permanecer em ferida aberta. Esta foi a forma encontrada de sarar essa ferida; o único ungento que conheço que amainou o sofrimento. A partir de agora abre-se uma nova época. Outros sentimentos virão, outras feridas abertas, novos poemas vividos, novos ungentos em forma de escrita. Porque não sei viver de outra forma: sentir como se não houvesse amanhã e sofrer as consequências de querer estar viva....

Cicatriz


A espada violou minha
Carne
A expressão angustiou-se
De dor
A mão célere estancou
Sangue
O coração tremeu de
Pasmo

Em mim
Ficou sarada
A cicatriz;
Em ti
Permanece a ferida
Em carne viva.

Poema nº2 da futura Antologia Em Carne Viva

Um passo...




Um passo.
Alguém vem da noite fria
Devagar caminha até mim
Traz calor e amor enfim
Segredos que inventa e cria.
Mas quê? Assim se afasta
Súbito arrepia caminho?
Não, não vás! Sozinho
Vais também ficar… Basta
Um pouco. Uma solidão
A dois. Um tímido olhar.
Pó de estrelas a cintilar
Numa estreita união.
Poemanº 4 da futura Antologia Em Carne Viva

Castelos de sonhos



Castelos de cartas erguem-se leves ao alto
Castelos de ases, reis e rainhas
Castelos de sorte
Castelos de duques, quinas e senas
Castelos de azar
Castelos da vida tombando a um toque de mão.

Castelos d’areia erguem-se soltos ao alto
Castelos de fina areia, branca e dispersa
Castelos de conchas, algas e espuma
Castelos de vida esboroando-se
Silenciosos
Na rebentação do dia.

Castelos de sonhos erguem-se loucos ao alto
Castelos no ar, de sol e luar
Castelos de nuvens com pó de estrelas
Castelos de vida escoando maresia
Na brisa diáfana do nascer matinal.
Poema nº15 da futura Antologia Em Carne Viva

Pedras soltas



Há pedras soltas
Na poeira dos caminhos.
Jogadas, pontapeadas, largadas.
Soltas pedras
Entre árvores intercaladas
Resistindo ao tempo
Mas ninguém olha.

Há sonhos soltos
Na encruzilhada da vida.
Jogados, pontapeados, largados.
Sonhos soltos
Entre mágoas intercalados
Resistindo ao medo.
Mas ninguém olha.

Há pedras-sonhos soltos
Na poeira da vida.
Jogados, pontapeados, largados.
Soltos sonhos-pedras
Entre árvores e mágoas intercaladas
Resistindo ao tempo
Resistindo ao medo.
Mas ninguém olha.

Poema nº 10 da Futura Antologia Em Carne Viva

Estala coração



Estala coração. Chora
As chagas que dilaceram
Essas veias sem demora
Dessa dor já antiga.

Grita as mágoas agora
De tudo o que te fizeram
O desespero que mora
Nessa dor já antiga.

Assim nesta hora
Que todos esqueceram
Subsiste pela vida fora
Essa dor já antiga.

Poema nº 18 da futura Antologia Em Carne Viva


Amor Secreto


Amo-te em cada dia que jazo sem ti.
Amo-te na ausência do teu corpo.
Amo-te nas noites solitárias.
Amo-te nos dias que correm iguais.
Amo-te no nó da garganta profundo.
Amo-te na lágrima teimosa que desliza.
Amo-te nas borboletas do ventre.
Amo-te para além das lógicas racionais.
Amo-te raivosamente, sem te querer amar.
Amo-te contra mim e meu percurso.
Amo-te sem te poder dizer que te amo.
Amo-te em silêncio e com recato
Por detrás das palavras com que te digo que não te amo.
Amo-te profundamente: hoje e ontem e amanhã.
Amo-te e juro a mim mesma, solenemente,
Que jamais saberás o quanto te amo.



Poema 29 da futura Antologia Em Carne Viva

Fui a Baiona a uma funeral


Fui a Baiona a um funeral.
Tinha um vivo para enterrar
Não sabia se na praias, no areal
Ou nas profundezas do fundo do mar.

Fui a Baiona a um funeral.
Mirei canas sem isco, sós
Revi banhos de riso sem mal
E o prazer que morreu em nós.

Fui a Baiona a um funeral.
As águas permanecem calmas
Os rochedos escondem mel e sal
E os namorados trocam de almas.

Fui a Baiona a um funeral.
Senti na minha pele de mulher
As carícias da brisa matinal
E arpões que o tempo nela fere.

Fui a Baiona a um funeral.
Vagas de sentimentos revoltos
Assaltaram-me como um temporal
Em nuvens de agonia envoltos.

Fui a Baiona a um funeral.
As conchas trazidas pela maré
Vinham vazias, vítimas de vendaval
Mergulhei e senti-me sem pé.

Fui a Baiona a um funeral.
Nas redes antigas fiquei enredada
E mariscos não encontrei, afinal
Só minha barca da vida, afundada.

Fui a Baiona a um funeral.
De lá saíam algas em turbilhão
E lágrimas de vermelho coral
Soltavam-se tristes da embarcação.

Fui a Baiona a um funeral.
Fui de propósito enterrar o passado
Na memória pôr um ponto final
E esquecer aquele navio afundado.

Fui a Baiona a um funeral.
Enterrei a âncora bem fundo
Teci uma coroa de flores artesanal
E despedi-me de um amor profundo.

Fui a Baiona a um funeral.
Mergulhei a pique e por pouco morri
No sofrimento que quase me foi fatal
Limpei as lapas e de novo nasci.

Fui a Baiona a um funeral.
No mar alto, carpi últimas mágoas
Ilusões, resquícios de vida plural
E emergi purificada daquelas águas.

Fui a Baiona a um funeral.
Enterrei o meu vivo. Até que enfim!
Cometi, quiçá, um pecado capital
Mas a força do mar vive agora em mim.
Poema nº 32 da futura Antologia Em Carne Viva
Foto da escritora

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Divagação



Gosto do silêncio.
Diz tanta coisa que eu não digo!
Murmura ao ouvido sussurros de calma
Doçuras de algodão níveo pairando no ar.

E hoje toda a calma do universo
De uma Natureza sem gente
(sem ninguém saber)
É infinitamente minha.

27-01-1986

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Sugestão de leitura

Neste país de circos mediáticos, medíocres, medrosos e medonhos, existe uma voz, pelo menos, lúcida e corajosa. Vale bem a pena ler.

Mário Crespo in Público
O palhaço
O palhaço compra empresas de alta tecnologia em Puerto Rico por milhões, vende-as em Marrocos por uma caixa de robalos e fica com o troco. E diz que não fez nada. O palhaço compra acções não cotadas e num ano consegue que rendam 147,5 por cento. E acha bem.
O palhaço escuta as conversas dos outros e diz que está a ser escutado. O palhaço é um mentiroso. O palhaço quer sempre maiorias. Absolutas. O palhaço é absoluto. O palhaço é quem nos faz abster. Ou votar em branco. Ou escrever no boletim de voto que não gostamos de palhaços. O palhaço coloca notícias nos jornais. O palhaço torna-nos descrentes. Um palhaço é igual a outro palhaço. E a outro. E são iguais entre si. O palhaço mete medo. Porque está em todo o lado. E ataca sempre que pode. E ataca sempre que o mandam. Sempre às escondidas. Seja a dar pontapés nas costas de agricultores de milho transgénico seja a desviar as atenções para os ruídos de fundo. Seja a instaurar processos. Seja a arquivar processos. Porque o palhaço é só ruído de fundo. Pagam-lhe para ser isso com fundos públicos. E ele vende-se por isso. Por qualquer preço. O palhaço é cobarde. É um cobarde impiedoso. É sempre desalmado quando espuma ofensas ou quando tapa a cara e ataca agricultores. Depois diz que não fez nada. Ou pede desculpa. O palhaço não tem vergonha. O palhaço está em comissões que tiram conclusões. Depois diz que não concluiu. E esconde-se atrás dos outros vociferando insultos. O palhaço porta-se como um labrego no Parlamento, como um boçal nos conselhos de administração e é grosseiro nas entrevistas. O palhaço está nas escolas a ensinar palhaçadas. E nos tribunais. Também. O palhaço não tem género. Por isso, para ele, o género não conta. Tem o género que o mandam ter. Ou que lhe convém. Por isso pode casar com qualquer género. E fingir que tem género. Ou que não o tem. O palhaço faz mal orçamentos. E depois rectifica-os. E diz que não dá dinheiro para desvarios. E depois dá. Porque o mandaram dar. E o palhaço cumpre. E o palhaço nacionaliza bancos e fica com o dinheiro dos depositantes. Mas deixa depositantes na rua. Sem dinheiro. A fazerem figura de palhaços pobres. O palhaço rouba. Dinheiro público. E quando se vê que roubou, quer que se diga que não roubou. Quer que se finja que não se viu nada.

Depois diz que quem viu o insulta. Porque viu o que não devia ver.

O palhaço é ruído de fundo que há-de acabar como todo o mal. Mas antes ainda vai viabilizar orçamentos e centros comerciais em cima de reservas da natureza, ocupar bancos e construir comboios que ninguém quer. Vai destruir estádios que construiu e que afinal ninguém queria. E vai fazer muito barulho com as suas pandeiretas digitais saracoteando-se em palhaçadas por comissões parlamentares, comarcas, ordens, jornais, gabinetes e presidências, conselhos e igrejas, escolas e asilos, roubando e violando porque acha que o pode fazer. Porque acha que é regimental e normal agredir violar e roubar.

E com isto o palhaço tem vindo a crescer e a ocupar espaço e a perder cada vez mais vergonha. O palhaço é inimputável. Porque não lhe tem acontecido nada desde que conseguiu uma passagem administrativa ou aprendeu o inglês dos técnicos e se tornou político. Este é o país do palhaço. Nós é que estamos a mais. E continuaremos a mais enquanto o deixarmos cá estar. A escolha é simples.

Ou nós, ou o palhaço.

Poema nº 28 da Antologia Em Carne Viva

Insónia


O tecto é branco
O chão é cinzento

As paredes são quatro
Os quadros são cinco

A cama é alta
O candeeiro é baixo

O silêncio é de ouro
A palavra é de prata

A folha de papel é pautada
O bloco de notas é quadriculado

O quarto tem 75 tacos
O roupeiro tem 17 prateleiras

O lençol é de linho
A colcha é de seda

A porta está aberta
A janela está fechada

O tecto é branco
O chão cinzento é.



Poema e fotografia de Ana Paula Mabrouk

Para quem ama os livros

Este blogue destina-se apenas a quem ama os livros. Lá se encontram gravuras, pinturas, esboços e muitos, muitos livros.

Boa leitura.

http://www.osilenciodoslivros.blogspot.com/

domingo, 13 de dezembro de 2009

Morre lentamente quem não viaja

Aqui vão alguns conselhos sábios de Pablo Neruda sobre como viver a vida em plenitude. Espero que aproveitem.






"Morre lentamente quem não viaja,

Quem não lê,

Quem não ouve música,

Quem destrói o seu amor-próprio,

Quem não se deixa ajudar.



Morre lentamente quem se transforma escravo do hábito,

Repetindo todos os dias o mesmo trajecto,

Quem não muda as marcas no supermercado,

Não arrisca vestir uma cor nova,

Não conversa com quem não conhece.



Morre lentamente quem evita uma paixão,

Quem prefere O "preto no branco"

E os "pontos nos is" a um turbilhão de emoções indomáveis,

Justamente as que resgatam brilho nos olhos,

Sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.



Morre lentamente quem não vira a mesa

Quando está infeliz no trabalho

Quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho,

Quem não se permite,

Uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.


Morre lentamente quem passa os dias

Queixando-se da má sorte ou da chuva incessante,

Desistindo de um projecto antes de iniciá-lo,

Não perguntando sobre um assunto que desconhece

E não respondendo quando lhe indagam o que sabe.


Evitemos a morte em doses suaves,

Recordando sempre que estar vivo

Exige um esforço muito maior do que o

Simples acto de respirar.

Estejamos vivos, então!"


Pablo Neruda

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Rei Mouro




Num país à beira-mar plantado
Começa uma história banal
No centro de uma grande cidade
Em plena época de Natal.

Trata-se de um presépio vivo
De três pessoas composto
De um pequeno rei negro
Concebido bem a gosto.

Mares e oceanos cruzaram
Engoliram fome e fel
Montando finalmente tenda
Em terras de leite e mel.

O pai, carpinteiro de profissão,
Ou não estivéssemos no Natal
Cedo encontrou nesta Babilónia
Torre na qual trabalhar.

Era um futuro centro comercial
Onde gambiarras de mil cores
Prometiam a felicidade eterna
Aos potenciais compradores.

Nem sequer imaginavam
Que a viga de madeira sustenta
O fruto do trabalho árduo
Que a loja de marca ostenta.

A Mãe, de seu nome Maria
Vive num palácio urbano decorado
De zinco, plástico e tijolo
Juntinha do seu bem amado.

Apenas as seringas espalhadas
Em volta do seu exíguo estendal
Entre linguajares desconhecidos
Lhe lembram a face do mal.


Vive entre o medo de regressar
E a esperança secreta de permanecer
Da terra natal as saudades
Os sonhos na terra do renascer.

É rainha mãe de um monarca
Promessa de um futuro melhor
Não é Jesus de Belém
Mas noutro deixará sua cor.

É já final de dia invernoso
Quando o sol abraça o mar
À porta assoma a mãe aflita
Em plenos pulmões a gritar.

É a cultura crioula que afirma
Que só há um modo de parir
Das veias de sangue quente
Voz alta terá que se ouvir.

Uma vizinha em socorro acode
Depressa um carro ao hospital!
Não posso, chora a pobre Maria
Aqui não sou mãe: sou ilegal!

Mulher, deixa lá isso agora
Teu filho merece o melhor
Vais dar o nome de Aurora
Mulher de meu irmão Belchior.

Lá foram as duas vizinhas
Num chasso velho a gemer.
Não sei quem gemia mais alto:
Se o carro ou se a mulher...

Pela primeira vez na vida
Maria está deveras assustada
Não tem ninguém a seu lado
Nem mãe, marido ou cunhada.

Petrov Kaspar, ao seu serviço
Vamos lá tirar esse rapaz
Há-de ser um homem forte
Saudável, inteligente e sagaz.

Entre gritos lancinantes
De qualquer um arrepiar
Sem folha de bananeira
Faz ela um último esgar.

Já cá fora o garoto
São e escorreito, garante
O médico russo a sorrir
À cabo-verdiana diletante.

Avisem o Sr. Baltasar
Patrão do Zé carpinteiro
Que este já cá tem um filho
Com carapinha e sem dinheiro.

Cabelos louros não tem
Nem mirra, incenso ou ouro
Mas tenho a certeza que vem
Ao mundo em versão de rei mouro.

Não sei se fábula será
Esta minha história banal
Só sei que aconteceu um dia
Quase em vésperas de Natal.

Versão em verso do conto Nasce Jesus
Ana Paula Mabrouk

Não me peças que te ame

Não me peças que te ame.
Tudo menos isso.
Pois não foi isso que fiz a minha vida inteira?
Amar-te infinitamente?
Ai de mim que sou finita!
Derrubar as barreiras do tempo, da distância, da agonia.
Amar-te sempre, contudo, ainda que e todavia.
Amei-te tanto que me esqueci de me amar.
E tu? Amaste-te tanto que te esqueceste de me amar.
A vida é assim. As palavras são vãs e os actos prementes.
As palavras atropelam os sonhos, queimam as asas.
Os actos saram os corações em chama.
De tanto te amar, acabei por te perder.
Por isso não me peças que te ame. Outra vez não!


Poema nº 25 da Antologia Em Carne Viva

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Antologia Poiesis

Informo amigos e inimigos que irei fazer parte do volume XIX da Antologia Poiesis, que será lançada no dia 27 de Fevereiro de 2010, em Lisboa.
Para mais informações consultem o endereço em baixo.

http://antologiapoiesis.blogs.sapo.pt/

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Nasce Jesus

Com Dezembro chega o Natal, para muitos símbolo do consumismo exarcebardo. Pai Natal, presentes, Árvore de Natal, luzes, exibicionismo. Então e o presépio?

Nasce Jesus

Tinha chegado a hora. A noite gelava a alma de tão fria e no ar pairava a negritude de um Dezembro invernado. A solidão pesava como um manto que tudo envolve, cobrindo medos e miséria envergonhada. Dentro da barraca de madeira, nua de adornos mas orgulhosa de afectos, jazia Maria das Dores. As pupilas estavam dilatadas e as mãos crispadas torciam um lenço de riscas coloridas, lembrança de um pedaço do seu país. Nele se guardavam as cores e o cheiro de um outro mundo, muito para lá da dor. Ah como ela desejava ter ali a mãe, as irmãs, as tias e as primas! Como ia enfrentar aquele momento sem a solidariedade feminina em seu redor? Sozinha num país de costumes estranhos, sentia-se completamente desamparada. Havia um vazio em forma de crescendo que lhe ia corroendo as entranhas. E a incerteza do rumo a tomar toldava-lhe o discernimento. O que fazer naquela hora?

O José do Nascimento encontrava-se a trabalhar. Era precisar acabar o centro comercial naquela noite, pois a abertura estava marcada para o dia seguinte. Ia ser a inauguração da década, segundo o senhor Baltasar, o encarregado da obra. O Zé carpinteiro, como era conhecido, aparafusava a última viga de madeira no andar superior. Nos pisos inferiores, gambiarras e enfeites berrantes iluminavam a noite fria, prometendo a felicidade eterna aos potenciais compradores. Eles nem desconfiavam que a sua torre de consumo escondia uma Babel de suor e de mãos calejadas. Nem imaginavam que o seu frenesim de tudo ter a qualquer custo impedia trabalhadores humildes de poder passar a noite de Natal com as suas famílias. Não imaginavam ou preferiam não imaginar, protegidos por um desconhecimento que os muralha do exterior…

Maria deixara-se ficar no seu pequeno palácio de desperdícios urbanos até ao último momento. Petrificada entre o medo de abandonar a segurança do pequeno mundo que lhe inspirava segurança e a necessidade, cada vez mais premente, de ser ajudada, não conseguia decidir o que fazer. Se ao menos o seu Zé ali estivesse! E, de repente, um grito irreprimível irrompe da garganta em alvoroço. É uma súplica lancinante que anuncia que a natividade está prestes a acontecer. A dor suplanta o medo do repatriamento, a angústia do desconhecido, o desamparo da falta de uma mão amiga. Nem a falta da folha de bananeira no ventre fértil pode impedir o seu menino de nascer….

Petrov Kaspar está de serviço no hospital em terras lusas. É com orgulho que conseguiu finalmente a equivalência ao seu diploma ucraniano. Labutou cinco anos nas obras, a carregar baldes de massa às costas e a estudar português na sua hora de almoço. Suportou calado o escárnio e a incompreensão de ser mais um estrangeiro a roubar os empregos dos “nossos”. Cicatrizou a alma dorida com música natal, comprada em forma de cassetes piratas ao engajador da sua aldeia. Sonhou acordado com a mulher e os filhos do outro lado do mundo, junto do calor do pequeno calorífero e longe do calor do seu afago. Um dia, quem sabe…

«Doutor Petrov! Mais uma parturiente. Na ficha consta o nome de Aurora, esposa de um tal Belchior Silva, mas eu tenho as minhas dúvidas…. É mais uma ilegal.»
Kaspar olha a enfermeira com um misto de repúdio e de perdão, que vem a meio caminho. Na segurança de um país que não conheceu guerras, fome e perseguições políticas desumanas nas últimas décadas, é tal fácil falar de cor! Para lá das fronteiras de um pequeno país de sol e mar, esconde-se todo um mundo de seres humanos à deriva, divididos entre o que lhes é familiar e os sonhos de um amanhã melhor para os seus filhos.

O médico de serviço apressa-se a acalmar aquela Maria assustada. «Petrov Kaspar, ao seu serviço! Vamos lá tirar esse rapaz.» Há-de ser homem forte, correcto e trabalhador, como o pai, pensa Maria, antes de um derradeiro esgar. Dois gritos de arrepiar e um esventrar de esperanças renascidas.
«É são e escorreito», palavras da estagiária de serviço, ainda extasiada com o milagre da vida que lhe escorre entre as mãos.
Chora a mãe Maria, feliz ao ver o seu menino, prega o pai José, diligente e insuspeito da notícia, desinfecta as mãos Kaspar, sorridente por mais um ser que ajudou a nascer, desliga o telemóvel Baltasar, contente pelo dever cumprido. Quanto ao tal Belchior, nem suspeita que tem mais um filho….
«Como se vai chamar o menino?», inquire a enfermeira chefe.
«Jesus do Nascimento.», responde a mãe orgulhosa.
E assim se cumpre a tradição de mais um Natal na Terra.

Conto que ganhou o 4º lugar no XXVI Concurso Internacional Literário das Edições AG, no Brasil, 2008



Chama da vida


Poesia é chama ardente
É doce, meiga e dorida
Crepita dentro da gente
E ateia a chama da vida.

Inflama, queima e arde
Tudo consome e agita
Gera nova forma d’arte
Braseiro na alma crepita.

Crepita dentro da gente
Labareda inspirada
Poesia é chama ardente
Doce letra derramada.

Dá à vida emoção
Muda dor em ledo canto
Ateia no coração
Versos dum outrora pranto.

Vivo assim vidas mil
Sou da vida foragida
Poeta sábio, e gentil
Em verso vivo contida.

Contida tenho segredo
Neste prazer fulgurante
Poesia, verbo ledo
Dita em ritmo pulsante.

É doce, meiga e dorida
Incendeia o meu ser
E ateia a chama da vida
Acende em mim o viver.
Ana Paula Mabrouk

sábado, 5 de dezembro de 2009

Livro Ferida Aberta de Jorge Sousa Braga

Poema Mulher

Metade mulher metade pássaro
metade anémona metade névoa

Metade água metade mágoa
Metade silêncio metade búzio

Metade manhã metade fogo
Metade jade metade tarde

Metade mulher metade sonho


Nunca escolhi um livro para ler: sempre foram os livros que me escolheram a mim.
Isso mesmo aconteceu com este livro de Jorge Sousa Braga. Uma amiga em comum e o gosto pela escrita e pela leitura.
É um livro diferente escrito por um ginecologista, explicitamente sensual, anatómico e sexual. Um livro que pode chocar algumas sensibilidades mas que desnuda realidades em forma de romã granada, lótus em flor ou borboleta só com asas. Recomendado aos mais afoitos.
Quanto a mim, encantou-me este poema inaugural: um hino à mulher, sem dúvida.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Poema para a poetisa galega Àsun Estevez



À Asun Estevez

Mulher cativa
Do mar imenso
Filha do vento
Tatuada a liberdade.

És borboleta
Lua cheia
Menina guerreira
Laranjeira em flor.

Pernas de trapo
Dizias ter um dia
Duras penas
Mágoas sentidas
De quem ri
Para não chorar.

Mas eis que encontraste
Poesia companheira
Bálsamo de estrelas
Beijos de sal
Mãos e boca
Nessa pele de mulher.

Do peito desnudo
Floriu um jardim
Desejo intenso
De quem não sente frio.

Experimentaste.
Ousastes.
Rasgaste.
Soltaste.
Voaste.

O mundo é de facto imenso
E tu sabes navegar.


Ana Paula Mabrouk
05/05/09

Comentário pessoal ao livro Auto dos Danados

Antunes, António Lobo, Auto dos Danados, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1985


Livro do desencanto, no qual a degradação das pessoas, das coisas e dos preceitos é o tema principal. È através da história de uma família de Monsaraz que esta degradação nos é dada. Existem vários narradores, membros da família ou com ela relacionados, que nos contam, cada qual, uma parte da história. Reunindo todas essas partes temos a história completa. O ritmo e a sequência lógica dos pensamentos dos narradores são constantemente interrompidos pela realidade quotidiana, ela própria fruto de uma análise subjectiva. Podemos dizer que o livro é de facto psicológico. O fluxo narrativo não é cronológico, pois existem constantes divagações e intercessões no ritmo narrativo. As prolepses relativas ou totais, assim como as analepses, são muito frequentes, dificultando a apreensão do conteúdo e do fluir da história. O próprio decadentismo está patente na linguagem (calão). A linguagem tem associações muito originais e inesperadas, que dão um tom característico ao livro. Predomina o discurso indirecto, embora geralmente não assinalado
As personagens são todas elas apresentadas como monstros, com os seus lados negativos salientados. Uma família onde reina a ganância sem limitações, à espera da morte do avô, para se apoderar da herança. Na realidade, não existe herança nenhuma, pois o avô derreteu-a em casinos, mulheres e na tentativa de cura de dois dos seus filhos doentes (deficientes mentais). É por esta acumulação de dívidas que todos tentam roubar todos, na esperança de se tornarem os únicos herdeiros. O único elo de ligação que parece existir é-nos dado pelo tio, que dormiu com todas as mulheres da família. A perversão sexual e a exploração deste tema atravessam e são uma constante em todo o livro. Tudo e todos são profanados: o avô moribundo, a mongolóide… Os poucos apontamentos positivos emanam de algumas personagens femininas, como a prima do Outeiro, Lurdes. Elas parecem representar uma pequena parcela da mulher portuguesa típica: as mulheres indefesas e solitárias que aprenderam a contar só consigo próprias, num estoicismo algo perpendicular. Elas representam o matriarcado que caracteriza Portugal.


26-08-2008

Álbum de recordações

Álbum de recordações




Está trancado num caixote robusto, selado com fita adesiva, extra-forte. Acorrentei-o para ele não fugir, de repente. Foi fechado com cadeado à prova de evasão. Escondi-o num sótão velho, empoeirado. Está afastado da luz do dia, num recanto escuro. Mergulhei-o no esquecimento dos dias atarefados. Está aferrolhado a sete chaves, com código numérico. Lacrei-o com cera vermelha, sangue do meu sofrimento.
Na capa tem inscrito «O Meu Álbum de Recordações». São memórias dos momentos felizes ou pseudo-felizes. Felizes, certamente, na ignorância do futuro incerto. Felizes na ânsia de agarrar os instantes nos quais sorria, mesmo quando chorava por dentro.
Vou deixar que as aranhas tecem as suas teias; sinal da passagem do tempo. Esperar que o cartão envelheça lentamente, como eu, mas longe de mim. Adivinhar as páginas amarelecidas e não folheadas. Pressupor a humidade a colar instantâneos e a arruinar o colorido das estampas. Deixar morrer em mim memórias que sagram e que não deixam cicatrizar feridas antigas.
Vou deixá-lo lá, bem apartado de mim e da tentação de o abrir. Longe do masoquismo de rememorar outros tempos, outros cenários. Vou lavar da memória contornos e traços fixados de um rosto que conhecia, ao pormenor do tacto e dos afectos. Vou arrancar do peito, a ferros, as mágoas profundas de não ter conseguido expurgar do corpo e da alma e da vontade aquele que continua a insinuar-se nos sonos mal dormidos.
Vou dormir sobre o assunto, uma eternidade se preciso for, e tentar acordar noutra vida, amnésica e abençoada pelo vazio do passado. E à noite, antes de dormir, orar Àquele-que-tudo-sabe para que apague, definitivamente, todas as recordações gravadas nas veias.
Esquecer, apagar, olvidar. Falo de mim e para mim, é claro!

Ana Paula Mabrouk
04-07-2001

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Balanço de 3 meses

Caros amigos, conhecidos e desconhecidos,


faz hoje 3 meses que iniciei o blogue e publiquei tantas mensagens quantos os dias do mês. Cumpri pois a minha promessa. Espero não ter desiludido. Continuarei a tentar manter o ritmo em Dezembro, embora saiba que não será fácil. Por agora fiquem com um pequeno apontamento, pois o tempo e a inspiração não dão para mais.


Às vezes escrevo muito
Às vezes vivo muito.
E que bem que minto!


domingo, 29 de novembro de 2009

Pensamento egocêntrico


Soprou o vento num banco à beira rio.
Que banco?
Não importa. Eu estava lá!


Pegando nas palavras do mestre

Viver a decreto

Preferia perder a mão que escreve estas linhas
Perder as pernas e correr com o coração
Preferia perder um pulmão e respirar afecto
Preferia perder o ventre e alimentar-me de abraços
Perder o motor anímico, essencial e concêntrico
E fazer tiquetaque mecânico e alcalino
Do que te perder, irremediavelmente,
E continuar a viver a decreto.

Poema 31 da futura Antologia EM Carne Viva

Pablo Neruda


Pablo Neruda é um dos meus escritores de eleição. Aqui fica um poema de amor para os dias frios. Que ele aqueça alguns corações.


Poemas premiados no XXIX Concurso das Edições AG- Brasil

Fim-do-dia

Curiosa a passagem do tempo!
Outros anseios, outros sonhos
Calos na vida, calos na alma
Restos da noite, auroras do dia.

Curioso o esquecimento das coisas!
Nem ânsias, desesperos ou sonos
Apenas afazeres, rotina e calma.
Sem medos, lamentos, sem agonia.

Curioso o esquecimento do tempo!
A ausência de pesar e rancor
O brando silêncio da melancolia.

Curiosa a passagem das coisas!
A rápida sequência do amor
O ritmo compassado do fim-do-dia.



Cai a vida

Cai a tarde com seu manto rosado
Prometendo quimeras
E com ela
Cai o desalento de um corpo vencido.
Só as lágrimas não caem.

Cai o sol, qual reflexo multicolor
Em todo o seu esplendor
E com ele
Cai o esquecimento da alma ferida.
Só as lágrimas não caem.

Cai o crepúsculo com sua luz pálida
Terminando mais um dia
E com ele
Cai o desespero das mágoas profundas.
Só as lágrimas não caem.

Cai a noite com seu manto negro
E sua serenidade
E com ela
Cai a raiva oculta ensurdecida.
Só as lágrimas não caem.

Cai a gambiarra dum manto de estrelas
Brilhando no cálido ar
E com ela
Cai a humilhação de mais outro dia.
Só as lágrimas não caem.

Poemas que alcançaram o 12º lugar no XXIX Concurso Internacional das Edições AG - Brasil

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Outro pensamento do dia

Morre-se lentamente
Nos dias atarefados dos outros.

Quando eu morrer



Quando eu morrer
Não quero nem choros nem gritos
Nem grande alarido.

Quando eu morrer
Não quero nem missas nem mármore
Nem campa imponente.

Só a chuva
Me deve acompanhar
À última morada.

O som embalará
O meu corpo cansado
A minha alma dorida.

Assim descansarei em paz
Como prometido aos moribundos.
Aqui dorme, não jaz.





Poema n0 32 da Antologia Em Carne Viva/Foto Ana Paula Mabrouk

«Poeta é o nome do meu próprio nascimento»

«Diga as suas tristezas e os seus desejos, os pensamentos que o afloram, a sua fé na beleza. Diga tudo isto com uma sinceridade íntima, calma e humilde. Utilize, para se exprimir, as coisas que o rodeiam, as imagens dos seus sonhos, os objectos das suas recordações.»

Rainer Maria Rilke in Cartas a um Poeta

«Poeta é o nome do meu próprio nascimento», já dizia Miguel Torga. Ninguém é poeta por vontade própria: é-se por uma imposição interior, ao mesmo tempo divina e maldita. È uma bênção e uma maldição, à qual não se pode fugir.
Há quem procure artificialmente construir poesia com labor, técnica e meditação apurada. Talvez consiga, mas a sua poesia soará sempre a falso. Não que estes condimentos sejam descartáveis. É preciso trabalhar a palavra, limá-la até ela corresponder ao mais íntimo do nosso sentir. Sim, porque há vezes em que ela irrompe bruta, intempestiva e desabrida. Aforam à página em branco rios de sentimentos e pensamentos em torrentes. É preciso depois esperar que escoe na praia a espuma cinza da onda para poder enxergar a transparência da água que só surge depois.
Todavia, brotam no verdadeiro poeta, vindas das profundezas dos seus sonhos, vivências e recordações palavras inesperadas, trinando a sinceridade. Evocando Camões «Transforma o amador na cousa amada». As palavras são a prova de quem já muito viveu e essa longevidade nada tem a ver com a idade biológica. As vivências íntimas assumem no poeta uma transmutação, uma sublimação, quase uma apoteose de quem no recato do seu escritório sentiu na pele e na alma a necessidade imperiosa de extravasar a sua interioridade. Com uma sinceridade intimista e humilde, o verdadeiro poeta colhe em si mesmo lexemas e fonemas que transforma em sinfonias orquestradas pela mão e pela mente. È compositor e maestro, no fosso da orquestra. E o público, por detrás das melodias, quase adivinha os estados de alma que deram origem àquelas notas conjugadas. Digo quase, pois o poeta é um fingidor, no sentido pessoano do termo. É dor que verdadeiramente sente.
Ser poeta é estar umbilicalmente ligado às palavras; delas se alimentar, sem nunca delas se poder desprender. É uma simbiose de uma vida que se iniciou mal ocorreu o nascimento. Um novo ser surgiu e com ele, gravado no ser o seu nome: poeta.

5 de Outubro de 2009

Fotos de Redondo




Fotografias da cerimónia de entrega de prémios no


Centro Cultural de Redondo


21 de Novembro de 2009




domingo, 22 de novembro de 2009

Eco Uno (poema 30 da Antologia Em Carne Viva)


Eco uno
Guardo de ti o choro nos olhos
E uma mágoa interminável no ser.
Fico perdida no tempo
Chovendo rasgos de memória,
Dilacerando névoas de solidão.
Esforço-me nas lembranças
Mas de riso nem um fiapo.
E descobri, tristemente,
Que não posso deixar morrer em mim
Esta mágoa sentida de ti.
É tudo o que me resta, afinal.
Prefiro morrer aos poucos,
Do que deixá-la morrer singular,
Eco uno do que já foi plural.
Poema e foto de Ana Paula Mabrouk

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Poeta maldito

Poeta Maldito

«Há só um caminho: entre em si próprio e procure a necessidade que o faz escrever. Veja se essa necessidade tem raízes no mais profundo do seu coração. […] …então construa a sua vida segundo esta necessidade.»

Rainer Maria Rilke in Cartas a um Poeta


Gostava de ser um poeta como os demais. Falar do mar, das estrelas, dos verdes campos. Saber usar palavras doces e metáforas gentis. Ser de fácil leitura e de pouca polémica. Gostava de «ser de companhia» e fazer serão a senhoras imaculadas, rodeadas de chá e cavalheiros espirituosos. Gostava de circular nos salões de sociedade e nas tertúlias literárias. Ser consensual e de brandos costumes.
Mas arde em mim uma sarça perene que clama em altos brados, que atroa nos meus ouvidos e que martela nos meus neurónios. Há uma chama que exige paixão e dor e martírio. Põe nos meus lábios vocábulos que incomodam e nos meus dedos segredos ímpios que se revelam sem pudor. Não sou de salão, nem de chá de camomila e, se calhar, nem poeta.
Sou tubérculo retorcido de gengibre, chá preto da Índia pobre e jingdung africano. Toco e pico como uma urtiga que não se esquece. E no rubor da pele deixo minha marca rubra, sem anestesia. Sou rainha-mãe dos zangões e pico como ninguém. Ninguém esquece minha ferroada.
Procurei por todo o lado o mel para a minha alma inquieta. Percorri estradas e tentei seguir as placas e obedecer às indicações. Viajei, busquei e regressei ao ponto de partida, tão insatisfeita como quando parti. Nem na lonjura do mar, nem no conforto do lar me senti viva e plena.
Interroguei as pedras dos caminhos, os silvados de amoras negras e os riachos sussurrantes. Esperei em vão respostas de outros, do Alto, do Além. E na plenitude da escuridão de um céu sem estrelas, descobri que o vazio em excesso e que o bálsamo em falta, residiam ambos comigo. Sempre tinham habitado e coexistido, lado a lado.
Não sou poeta como os outros, nem o gostava de ser afinal! Sou assim: poeta maldito, mal-amado, malfadado. Mas sou inteira: duas faces de uma mesma moeda. Sou doença e cura, moléstia e remédio. Escrevo em prosa e em verso este meu ser de alfabeto. Sou t de tudo e u de única. Princípio e fim; alfa e ómega. E neste caos das palavras nasço e morro mil vezes qual Fénix deslumbrante nas suas asas multicolores num monocromático céu azul.
Escrevo e vivo ao sabor da pena.


24 de Agosto de 2009
Ana Paula Mabrouk

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Mentira


Mentira


Pode-se mentir com palavras
Com imagens e com sinais
Na cara, pelas costas e à distância.
Pode-se mentir forçado
E com vontade e com prazer.
No passado, presente e futuro
E pode-se mentir em silêncio:
Descaradamente.

Poema 24 da Antologia Em Carne Viva

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Crónica: Em jeito de resposta ao conto Ana Paula, A Professora

Crónica: Em jeito de resposta ao conto Ana Paula, A Professora
(Uma espécie de conto quase plagiado)


Tenho um fã! Extraordinário! Tanto mais que é um fã do sexo masculino, fascinado pelo meu livro Alfabeto no Feminino. Eu já andava desconfiada que os homens liam, à socapa, o meu livro, mas eram retraídos demais para o comentar. Este não só o leu, como escreveu e me dedicou um conto com base no livro! Para além da palavra «extraordinário», não me ocorre mais nenhuma, neste momento!
Perante tal demonstração de apreço, o mínimo que poderia fazer era retorquir na mesma moeda – a escrita. Ora então aqui vai, não com outro conto, mas com uma crónica, o meu género preferido de prosa.

Caro amigo Fernando,
Com que então uma surpresa? Bem o pode dizer… Não esperava, de modo algum, algo tão criativo. Fiquei sensibilizada com o presente, tanto mais que ainda não é Natal, nem o meu aniversário (real ou o do conto), nem a data da minha reforma…
No entanto, tenho alguns reparos a fazer ao seu conto, reparos esses que devem ser lidos com atenção e sentido de humor.

Em primeiro lugar, fez desta Ana Paula uma quase Madre Teresa de Calcutá!
Menos, amigo, muito menos… Se é verdade que me entrego aos meus pestinhas até mais do que devia, em detrimento da vida pessoal, familiar ou literária, também não é menos verdade que penso na reforma como uma libertação para outro tipo de voos.
Em segundo lugar, fiz, de facto, parte ou colaboro ainda com várias organizações de cariz social ou associativo. Penso que a nossa passagem neste mundo deve deixar alguma espécie de marca que valha a pena recordar no futuro. Uma espécie de legado humanista que dignifique a pertença à espécie humana.
Quanto ao facto de ser adorada por toda a gente – alto e pára o andor que a procissão ainda vai no adro… É um erro comum a muita gente que me conhece pela primeira vez. Depressa ficam curados…Outros há (poucos) que ficam agarrados (coitadinhos) … É que a Ana Paula, escritora ou professora, é mulher sem papas na língua, característica germânica, pouco apreciada no Portugal dos Pequeninos. A sua lucidez incomoda muita gente.

Mas vamos ao conto propriamente dito. Existem erros imperdoáveis na construção do enredo!!! Vamos àquela que considero a primeira secção de erros de apreensão da realidade.
Professores homenageados neste país pelas qualidades de ensino e dedicação aos seus alunos?! Só numa fábula de Esopo… Todos os outros só aparecem nas reportagens da TVI pelas agressões aos alunos ou pela preguiça de não quererem ser avaliados.
Directores distritais (diz-se regionais) de Educação presentes em homenagens a professores?! Só em livros de ficção científica, mas atenção: passados noutro sistema solar a muitos muitos anos-luz da Terra.
Igreja repleta de gente?! Então não sabe que os divorciados estão excomungados pela Santa Igreja Católica? Não há cá desses hereges na amantíssima Casa do Senhor. Nem que seja uma professora benemérita. Não há cá perdão para ninguém. E pronto!
Missas em latim?! Ora os fiéis já são tão poucos! Era vê-los fugir a sete pés. Isto, salvo os casos dos coxos, é claro!
Gente à cunha, de pé, no Salão da Casa do Povo para homenagear uma provecta senhora de 80 anos? Só se houvesse um plasma gigante a transmitir jogos da Liga dos Campeões. Com direito a cervejas e tremoços… Amendoins também faziam o mesmo efeito.
Pais agradecidos pelo trabalho efectuado em prol dos seus filhos?! Então, o amigo não vê os telejornais? Desperdiça assim, gratuitamente, o insulto fácil e a linguagem vernácula, sem mais nem aquela? Olhe que os pais ainda vão chamar o Miguel Sousa Tavares para os defender, ao vivo e a cores, no jornal nacional, em prime time. Olha-me só o descaramento deste! Até parece que os professores são alguns «enjinhos»!

Finda esta secção, vamos à secção que demonstra que esta professora Ana Paula, afinal, não era assim uma grande flor que se cheirasse… Fazendo o balanço das vidas das 26 alunas presentes na homenagem, concluímos que:
3 estão divorciadas;
3 estão mal casadas;
3 estão «solteironas»
1 vive da pensão de viuvez do marido;
1 casou com «um gajo velho a dar para o rico»
apenas 2 estão contentes com os seus maridos.
Esta professora não era lá grande conselheira matrimonial, pois não? Safa-se apenas a do «gajo velho a dar para o rico». Parabéns, querida!

Terceira secção: a dos casos «memo memo mauzinhos»:
1 é reclusa;
1 suicidou-se;
1 deixou de estudar;
1 é depressiva vitalícia;
2 são gordas e disformes
3 são escritoras!;
1 é professora (coitada!)
Mas será que esta «stora» não ensinou nada às suas alunas? Esta lista é um chorrilho de desgraças!

Então, depois destes belos exemplos, o meu amigo ainda pede um livro com com as estórias de vinte e seis alunos do sexo masculino? Aí é que a hecatombe não tinha mais remédio.

Como boa professora que sou, não posso deixar de terminar esta apreciação com uma breve nota de agrado, o que em linguagem profissional se apelida de reforço positivo. Gostei particularmente daquele trecho em que o meu amigo compara a tarde de homenagem à tarde de circo dos pequenos irmãos Catitas. Insuperável!

Continue a escrever, caro amigo, mas para a próxima, escolha alguém que valha mesmo a pena: um Zé das Barcas ou as meninas da Ribeira do Sado.

P.S.: Obrigada pela homenagem e votos de muitos livros.

A sua autora preferida (como se depois desta análise, houvesse alguma réstia de esperança para mim…)

Ana Paula Mabrouk
18 de Novembro de 2009

Uma quadra popular

Em jeito duma quadra popular
Quero prestar a minha homenagem
Ao homem de carácter exemplar
Que escreveu com humor e coragem.
Quadra dedicada a Joaquim Horta Correia

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Cronicando pela vida fora

Cronicando pela vida fora


Cronicando fui pela vida fora
Contei histórias da minha gente
Escrevi humilde a toda a hora
Em prosa retratei o ambiente.

Fui um arauto de muitas novas
Algoz fui de tragédias diárias
Fui audaz escrivão de outras trovas
De outras vidas, de notícias várias.

Podem ler em Crónicas de Bombordo
Ora episódio saboroso
Ora recordações já esquecidas

No volume, quem sabe, d’Estibordo
Contarei em tomo muito saudoso
Histórias entretanto vividas.

Soneto dedicado a Joaquim Horta Correia, cronista algarvio, autor do livro Crónicas de Bombordo

domingo, 15 de novembro de 2009

Novo Vicente


Novo Vicente

Quiseram-me prender
Numa redoma dourada
Sem o lado de fora ver.
Uma ave-dor enjaulada.

Quiseram-me silenciar
Uma voz poderosa soou
Não tinha direito de amar
Esta liberdade que sou.

Quiseram calar meu grito
Fechar portas que destranquei.
Eu, rebelde, instalei o conflito
Libertei-me e bem alto voei.

Rasguei as nuvens alvas
Fui ditoso por um dia
Sulquei águas nada calmas
Sacudi asas de maresia.

Desenhei cores no céu
Fiz chover em pleno Verão
Duma noiva roubei o véu
Casei-me com a imensidão.

E quando tudo for grade
Em todos os lugares da Terra
Ecoarei essa palavra liberdade.
Ouvirão o meu grito de guerra!

Poema e foto de Ana Paula Mabrouk



sábado, 14 de novembro de 2009

3ª Menção Honrosa no Redondo

O SR. FELIZ

Era Domingo de manhã. O dia amanhecera envergonhado, com um sol pálido a espreitar por entre as nuvens que se espraiavam num céu de pastel. Fiquei mais uns minutos na quentura dos lençóis, tentando espantar a preguiça e ganhar coragem para enfrentar o dia.
Domingo era dia de desporto. No dia do Senhor, penso que Ele aprovaria que os seus seres imperfeitos, sacudissem o mofo da semana, desemperrassem as articulações e arejassem as ideias. Isto, claro está, se Ele pudesse opinar nos dias que correm.
Naquele dia estava particularmente abespinhada. Tinha tido uma semana difícil, num mês difícil, quase no final de um ano difícil. Sentia-me submersa num mar de sargaços, sem conseguir manter-me à tona por muito tempo. Faltava-me o ar e a vida pesava-me como a pedra gigante de mármore entre as mãos de Sísifo. Um eternizar de dias iguais, sem planalto no cimo da montanha, no qual repousar das atribulações. Apetecia-me gritar «Por favor, parem o Universo. Quero apear-me.» Mas como o Universo sofre de deficiência auditiva, em vez de me apear, meti as pernas ao caminho e dirigi-me para o choupal.
Era um ritual que cumpria religiosamente desde há alguns anos. Começara por necessidade física e tornara-se um vício, não só do corpo, mas da mente e da alma. Aproveitara aquelas caminhadas para higienizar os pensamentos e depurar a linfa.
Entrei no percurso do costume e estuguei o passo, olhando para o relógio para cumprir o tempo que a mim própria me impunha. Comecei por programar a agenda da semana, revi os compromissos assumidos e até preparei as refeições da semana. Em seguida, a mente vagueou para os planos sempre adiados, as dificuldades económicas, os desgostos afectivos de uma vida já madura.
- Posso acompanhá-la, companheira?
A voz fez-me estremecer, tal era o alheamento em que me encontrava. Não vira os grupos que corriam à minha frente, os amigos da bicicleta em sentido contrário, os colegas de caminhada, de rosto já registados, os dois cavalos imponente, dos quais me desviei instintivamente. Caminhava apressada, marcando o ritmo de forma mecânica, alheia a tudo em meu redor. Um voz assim, vinda do nada, causara um sobressalto que se traduzira num tremor involuntário.
- Assustei-a, menina?
- Desculpe, estava absorta nos meus pensamentos e não o tinha visto….
- Pois eu já a vi muitas vezes aqui a esta hora. Tem uma passada semelhante à minha.
- Peço desculpa, uma vez mais, mas quando começo a caminhar, não vejo nada, nem ninguém…
- Espero que não se ofenda com a minha proposta.
Olhei-o de soslaio. Aparentava aí uns sessenta e muitos anos, num corpo admiravelmente saudável. Estava equipado a rigor, desde as sapatilhas ao boné de pala, em voga. Os óculos escuros conferiram-lhe outro toque de modernidade.
- De todo. Faça favor.
- Sabe, menina, na minha idade a companhia é um luxo e uma alegria.
- Caminha sozinho?
- Fisicamente sim, mas sou um homem de sorte. Nunca me sinto só.
- Isso é bom…
- Há por aí tanto jovem velho e eu que já sou velho, sinto-me cada vez mais jovem.
- O senhor também não é tão velho assim!
- Que idade me dá? – inquiriu com ar matreiro.
- Não sei…Talvez sessenta e tal.
- Oitenta e dois já cá cantam – rematou cheio de orgulho
Parei de repente, abri os olhos e a boca de espanto e ia para dizer uma banalidade qualquer, mas nenhum som me saiu da garganta.
- Já estou habituado a essa reacção. Ao princípio, ninguém quer acreditar, mas olhe que é verdade.
O passo certo e firme com que me acompanhava, a vitalidade das suas palavras e aquele sorriso maroto escondiam um verdadeiro tesouro de longevidade.
Nem dei pelo passar do tempo no restante percurso. Estava embevecida com a história de vida de um estranho que, generosamente, decidira partilhá-la comigo. As pessoas mais velhas são de palavra fácil e quando sentem que são ouvidas, são de trato afável. Aquele homem tinha uma história de vida incrível.
Tivera um filho na Guerra do Ultramar, na Guiné, que regressara amargo e revoltado com a vida. Nunca mais se integrara na vida civil do pós 25 de Abril e um dia o pai fora encontrá-lo fardado a rigor, com um tiro na cabeça. Abraçou-o fortemente contra o peito, fez-lhe um funeral a preceito e nunca se insurgiu contra aquela partida tão contra natura. Ninguém deve julgar os outros, pois ninguém conhece os seus demónios. Cada um de nós tem de travar as suas batalhas e o desfecho é pessoal e intransmissível.
Anos mais tarde perdera a casa numa derrocada na baixa de Coimbra. Fora um daqueles Invernos impiedosos, que arrasam edifícios de tijolos e de carne e osso. Mudara-se para um pequeno apartamento, parcialmente comprado com o dinheiro do seguro.
- Foi pelo melhor – explicou. No sítio onde morava, já todos os rapazes da minha idade tinham morrido e eu não tinha com quem conversar. Agora tenho sete andares de vizinhos com quem dar à língua.
Há dezassete anos morrera a mulher com uma complicação respiratória, após uma pneumonia. Reformara-se um ano depois e a partir de então passou a ir todos os dias ao cemitério. Não para chorar as partidas, mas para pôr a conversa em dia. Leva sempre uma flor que deposita junto à fotografia, senta-se na berma da campa e conversa longamente com ela. A cumplicidade de uma vida mantivera-se intacta. Passa depois, na campa do filho e dá-lhe notícias dos netos.
Aos setenta anos diagnosticaram-lhe cancro da próstata. De iniciou sentiu-se abalado, mas desde cedo teve a certeza que ia vencer a doença. Fez muitos amigos no hospital e entre os sobreviventes formou um grupo de convívio que, todos os domingos, vai almoçar junto.
- Depois disto decidi começar a praticar deporto e eis-me agora aqui a falar com a menina. Sou um grande tagarela, não sou?
Durante todo o relato pensava em todos aqueles que passam a vida inteira a queixar-se dos pequenos obstáculos diários com os quais se deparam. Pensava naquelas pessoas lamurientas e envinagradas que não conseguem retirar lições de vida da adversidade e chegam ao fim do seu percurso sem nada ter aprendido.
Quanto a mim, havia chegado ao fim do meu percurso de hoje. Transpirava abundantemente, mas nem dera conta do meu esforço físico. Bebia as palavras simples e sábias de um companheiro de caminhada, que tinha muito para me ensinar.
- Foi um prazer ouvi-lo, Sr?
- Sr. Feliz. É assim que toda a gente me chama.
Sorri por fora e por dentro. Não havia decerto nome mais apropriado!
O Sr. Feliz despediu-se gentilmente e seguiu o seu caminho. O meu seguia em sentido contrário. Lembro-me de olhar o céu encastelado e de formular um pedido: «Por favor, parem o Universo. Quero entrar outra vez!» Tive consciência, naquele exacto momento, de que havia muito terreno ainda a percorrer. O Universo certamente tinha um plano secreto para mim e ainda não tinha cumprido o meu papel naquela longa viagem.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Menção honrosa

Prémio Literário Hernâni Cidade
Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
Prémios da Edição 2009


1º Prémio

A vida imperfeita de José Redondo
Marlene Correia Ferraz


2º Prémio

O herói
Dora Maria Nunes Gago


3º Prémio

O carrossel
João Manuel da Silva Rogaciano


Prémio Juventude

A tristeza além da sorte
Catarina Araújo Valentim


1ª Menção Honrosa

Uma mentira na eternidade
Pedro António Fernandes Canais


2ª Menção Honrosa

Lúcia Lima
Pedro Miguel da Cruz Pereira


3ª Menção Honrosa

O Sr. Feliz
Ana Paula Ramos Amaro (Ana Paula Mabrouk)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Mais velha do que a vida sou eu

Mais velha do que a vida sou eu

Não espero nada da vida.
Ela já não contem nada que m’interesse.
Sinto-me mais velha e alquebrada,
Tenho mais rugas e xailes negros,
Mais aventais e chinelos coçados
Do que ela.
Olho-a nos olhos doridos
Nos quais ela passou demasiado depressa
E deixou um gosto amargo,
Um gosto que não sai.
Sim.
Mais velha do que a vida sou eu.
Eu, que a vida não quis agarrar.
Tocou ao de leve ao passar apressada
E retraiu-se arrepiada com o que sentiu.
Não mais voltou a olhar
Na estrada comprida que seguiu.
Correu.
Virou a esquina
E nem um soslaio furtivo.
Só abandono.
Por vingança peguei no dicionário
E assassinei-a a negro.

poema 27 da Antologia Em Carne Viva

Feliz? Seria o sossego.


Feliz? Seria o sossego.




Corro atrás de tudo hoje
Devo, preciso e quero mais
Sempre além, além dos ais
Corro atrás da vida que me foge.

É uma lição, uma aula
Uma bilheteira, um teatro
Subo escadas, mais um acto
Bato portas, eis-me jaula.

Ai! Fera enjaulada sou
Corro círculos sem fim
Rasgo sonhos com desvelo

Sem ver para onde vou
Errei a vida sim.
Feliz? Seria o sossego.

Poema e foto de Ana Paula Mabrouk (Poema nº 20 da Antologia Em Carne Viva)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Os Fantasmas


Os fantasmas


Os fantasmas também existem.
Insinuam-se nos sonhos
Reviram os sonos agitados
E deixam um travo amargo ao acordar.

Os fantasmas também são reais.
Assombram os dias atarefados
Viajam connosco no tempo
Tornam-se eternos clandestinos

Os fantasmas também fazem doer.
Ferem a sangue e fogo
Inscrevem o nome no nosso ser
E depois pairam sobranceiros aos estragos.

Os fantasmas também me descobriram.
Fizeram em mim uma morada certeira
Vieram habitar nos medos e anseios
E eu fiquei inquilina nas suas casas assombradas.

Poema e foto de Ana Paula Mabrouk (poema 19 da Antologia Em Carne Viva)

Cinzenta como o dia


Cinzenta como o dia


Hoje estou cinzenta
Cinzenta como o dia.
Dormir seria o ideal
Ou talvez não…
Há sonos que cansam tanto!

O ar pesado da atmosfera
Espelha o meu ser interior.
Só falta a chuva!
O silêncio não pesa
Suaviza o ambiente.

Hoje tudo está estático!
O tempo parou
O espaço deixou de existir
A vida murchou.
Hoje gostava de ser rio.
Poema e foto de Ana Paula Mabrouk (17º poema da Antologia Em Carne Viva)

domingo, 8 de novembro de 2009

Particípio passado


Concebido nascido crescido
Querido vivido sofrido
Batido dorido esquecido
Assim se faz um homem.

23-05-1985

Poema e fotografia de Ana Paula Mabrouk

sábado, 7 de novembro de 2009

Ainda no rescaldo do encontro de Avis....

Em terra de mouros, afinal havia uma cinderela....

Quem estiver intressado, pode sempre consultar o site:


http://www.aca.com.sapo.pt/




sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Livro infanto-juvenil de Lurdes Breda


Novamente a chuva...




E toda a tarde eu chovi


Chovia.
E toda a tarde ela caiu
E toda a tarde não parou
E toda a tarde ela se ouviu
E tantas coisas me lembrou.

Falavam.
E toda a tarde se ouviram
E toda a tarde não calaram
E toda a tarde eles ecoaram.
As gotas de chuva que passaram.

Pensava.
E toda a tarde eu pensei
E toda a tarde não vivi

E toda a tarde eu chovi
E toda a tarde não parei
E toda a tarde eu morri.
Poema 12 da Antologia Em Carne Viva

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Poema nº 7 da Antologia Em Carne Viva

Chove



Chove!
Faz frio cá fora neste sentada sozinha
Ouve-se o barulho-chuva cair nos beirais
Com pa ssa da men te….
O seu som embala ao cair nas árvores altas
Lavando o ar-cinza da semi-obscuridade.
Nada move os quietos prédios verticais
Onde a chuva escorre, chorando vidros abaixo
Gotículas-lágrimas doces silenciosas.

Tanto frio!
Não sinto os pés nem a alma…
Chove agora em turbilhão
E o silêncio do lado de cá
Atroa ao som da chuva que fustiga o lado de lá.
Um vento gélido varre o telheiro-cimento
Onde sentada me encontro escrevendo
Trança de água nesta tarde invernada
Triste, profundamente negro-triste.

Chuva-fria!
Pesada a tarde, a chuva e o frio
O silêncio ensurdecedor deste lado
E o ritmo compassado do outro
Os prédios rígido-verticais
Estes blocos-cimento abandonados
E esta solidão tão desnuda!
Ah, tarde sem fim!
Que em mim estás morrendo
E morrendo eu em ti.


Ana Paula Mabrouk

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Prefácio d' A Descoberta

«Cada um sobrevive consoante a qualidade e a quantidade
de energia unificadora que traz consigo»

António Alçada Baptista


Esta pequena peça desenrola-se num banco de jardim à beira do rio Lis. De um lado, temos Sebastião, um mendigo que se considera um «velho abandonado, sem ninguém», que há muito desistiu de lutar, vencido pelos infortúnios da vida, desiludido com os valores da sociedade urbana. Do outro, Eduarda, uma criança curiosa e terna, que simboliza a promessa da própria vida e a aliança com o futuro. Entre os dois, estabelece-se um diálogo que versa tópicos como o tempo, o esquecimento, a sorte, a vida e a felicidade.
Sebastião, por detrás dos seus sessenta e quatro anos, exibe a sapiência que a idade, a experiência e as agruras da vida lhe conferiram. Relembra o tempo de infância, recorda vivências de amor e de cumplicidade da vida conjugal dos seus pais e responde às perguntas da menina, numa relação de mentor-discípula. Quem foi outrora «mestre de saberes», nunca conseguirá deixar de o ser.
Eduarda, numa atitude semi-atenta, semi-absorta, funciona como motor de arranque para um diálogo que mais não é do que um monólogo alargado. Ela é um pretexto para uma reflexão sobre a encruzilhada na qual se encontra Sebastião. O ser humano, independentemente da idade, sexo, estatuto social ou convicções pessoais, necessita de paragens ao longo do seu percurso vivencial para decidir caminhos e tomar decisões cruciais. São tempos de auto-análise, durante os quais se questionam as grandes temáticas que subjazem à existência humana: o sentido da vida, o conceito de felicidade, o significado que temos para os outros seres que nos rodeiam, o nosso papel na sociedade contemporânea.
Sebastião exibe uma atitude de auto-comiseração, de lamento permanente sobre o esquecimento dos demais, de acomodação à sua situação de excluído. Para ele «as pessoas esqueceram-se rapidamente» e ele não passa de um «retrato de um ensaio do esquecimento humano». Com consequência, perdeu a «vontade e a capacidade de lutar».

Eduarda, no entanto, é o retrato vivo do momento durante o qual dois seres humanos se encontraram e, por intermédio do amor, lhe deram o dom da vida. Ela permanece ao seu lado, impedindo-o de cair no vazio da auto-contemplação. Ela é a presentificação da felicidade que, em tempos, também ele foi para alguém. Esta voz, terna e ingénua, vem recordar-lhe que na vida «não existe meio termo, meio choro, meia lamentação, metade de um medo». Enquanto existir alguém, que se sente num banco de jardim, junto de nós, e nos aperte a mão com afecto, o abismo do fim ficará, para sempre, adiado.
Sebastião já sabe que «é difícil encontrar a felicidade plena. Nenhum homem poderá afirmar que foi em todos os momentos de existência completamente feliz». Entre o cume da montanha e o seu «baixio», existem muitas cambiantes de cor. Há jardins floridos e noites cinzentas. Há batalhas sangrentas de vermelho-vivo e águas tranquilas de azul-calmaria.
As Eduardas, reais ou imaginárias, estão sempre ao nosso lado, para nos relembrar que é preciso «espalhar os ensinamentos e dar em dobro o amor» que nós já recebemos anteriormente. Após algumas pausas de desalento e de quase desistência, é urgente olhar as estrelas, sentir o calor da «luz do coração» e escutar as palavras sábias da mãe do Sebastião: «Não podes apenas desejar… Precisas de fazer as coisas acontecerem na tua vida!» Essa é a Descoberta última de quem procura o sentido da vida.

Ana Paula Mabrouk
16 de Agosto de 2008
Parque Mondego, Coimbra

A Descoberta de Joaquim Santos


Hoje ao abrir a caixa do correio deparei-me com uma encomenda. Absorta nos meus pensamentos, abri-a mecanicamente. Lá de dentro saiu uma boa surpresa: o novo livro do meu amigo Joaquim Santos. Chama-se A Descoberta - Um Amor de Sempre, da Textiverso. Ainda antes da Estrela Cintilante, foi com este texto que travámos conhecimento através de uma amiga comum. Acabei por ser eu a fazer-lhe o prefácio e o Joaquim gostou tanto que ficámos logo amigos. A vida tem destas coisas...

O livro deu agora à estampa e está ternurento e encantador. Para isso muito contribuem também as ilustrações inspiradas da Andreia Proença.

Parabéns aos dois!


segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Desabafo

Caros leitores ,
findo o mês de Outubro consegui cumprir a promessa de publicar tantas mensagens quantos os dias do mês. Dias houve em que publiquei 2 ou mesmo 3 e noutros nenhuma.
Chegou Novembro e com ele o dia de Todos os Santos e o de Finados. Não são épocas muitos inspiradoras para mim. No entanto, gostaria de vos deixar um conto inédito chamado Testamento.
Perdoem-me os que não gostam do meu lado lunar, mas a vida faz-se de todos os retalhos, inclusivé da morte.
TESTAMENTO

Dizem que existem pessoas que pressentem o aproximar da morte. Algumas rezam, outras festejam os derradeiros momentos, outras ainda cometem actos extravagantes, para que possam ser lembradas. Sempre pensei que se deve morrer como se viveu em vida. Uma espécie de coerência, levada até às últimas consequências.
Dado que sempre me senti sozinha no mundo, mesmo nos momentos em que estive acompanhada, penso que este é o fim digno para mim. Nunca gostei de aborrecer os outros com os meus problemas, assim como nunca gostei de deixar os meus assuntos por resolver. Não se trata de uma atitude egocêntrica, do tipo “orgulhosamente só”, apenas um registo pessoal. O meu. Simplesmente.
Hoje sinto que esta dor que me atormenta o coração e o braço direito, há já algum tempo, se tem feito sentir de forma particularmente acutilante. Como que a dizer que o meu fim se aproxima a passos largos. Ataques convulsivos de choro irrompem do nada, num assomo que não consigo controlar. Todo o meu corpo fala comigo e me instiga a tomar medidas urgentes. Decidi escutá-lo, pois sei que a sua fragilidade nunca conseguiu acompanhar a teimosia do meu espírito. Demasiado rebelde para ser contido por um corpo de mulher que a idade não deixa esquecer.
Poderia ter ido ao hospital, numa atitude sensata e madura. Poderia ter adiado este fim precoce. Mas para quê? Os médicos mandar-me-iam levar uma vida mais calma, sem tanto trabalho, nem stress. No entanto, a minha realidade não se compadece com prescrições médicas. Então, de que me adianta ir ao hospital adiar o inevitável por mais alguns meses e, acrescentar dores, sofrimento e vergonha ao resto dos meus dias? Nada: mesmo nada. Sejamos práticos, então. Façamos um testamento e deixemos o destino, Deus ou o que for que controla a minha existência, seguir o seu rumo. Naturalmente.
O choro parou as suas vagas sucessivas de irrupções de marés vivas, mas a dor aguça-se e é premente avançar neste mar revolto de final de dia.
Gostaria de deixar muitos bens materiais e palavras de conforto para todos, mas essa não sou eu. Lamento. Parece que passei a vida inteira a pedir desculpa por quem sou…Não sou rica, bem-sucedida, bonita, socialmente considerada, nada que valha a pena no Portugal de hoje. Falhei em tudo e fracassei com distinção. Sinto que nada do que fui ou fiz valerá uma linha num periódico ou num jornal nacional, em prime time. Levei uma existência medíocre entre gente pequenina. Ah Lilliput sem Guliver !
Sinto-me impotente para mudar a minha vida e perdi a esperança, de forma definitiva e irreparável. Vagueio nos dias, atormento-me nas noites. Nem coragem suficiente tive para pôr termo a esta angústia. Não quis alguma entidade superior ou apenas reinou a minha incompetência. Parece que este corpo frágil foi cativo, durante muito tempo (tempo demais, quanto a mim) do espírito caprichoso. Qual borboleta, sobreviveu a furacões, tremores de terra e ondas gigantes. Nem ventos agrestes, nem solo conturbado, nem águas profundas. Uma insustentável leveza do ser…
Comprimo o peito com a mão direita e entendo que este corpo está finalmente cansado. Anseia por um repouso sem fim. Reclama a paz a que tem direito. O descanso dos guerreiros, no final de tantas batalhas. A panaceia da alma retalhada e do rosto contorcido pelo agonizar de tanto sangue derramado em vão. Já chega! Cai a máscara, a armadura e a espada enferrujada. As sandálias empoeiradas estão gastas de tanto palmilhar…
Gravo a mensagem, temerosa de que a ceifeira não me dê tempo de terminar o meu legado. Talvez fique a meio caminho, talvez nunca chegue o manuscrito às mãos que saibam reconhecer os caracteres e pictogramas. Talvez fique a meio do desenho de um pássaro ou de um rio. Quem sabe de um molho de trigo em tempo de ceifa? Outono da vida. Final de um painel de estação que fecha um ciclo e não tem tempo de abrir outro.
Em tempos idos sempre acreditei que, se trabalhasse com afinco para conseguir aquilo que queria, um dia haveria de lá chegar. Acreditava, ingenuamente, que o meu futuro apenas dependia de mim e da minha capacidade de luta. A vida encarregou-se de demonstrar a falência da minha crença e de vergar o meu orgulho pueril. Grande parte daquilo que nos acontece na vida, nada tem a haver com a nossa aguerrida batalha diária ou sequer é fruto das nossas escolhas. Acaso, forças cósmicas, fato ou vicissitudes são partes integrantes e imprevisíveis desta nossa passagem terrestre. Não escolhemos doenças, acidentes de automóvel, falências das empresas nas quais empenhámos suor e lágrimas, mortes de familiares, amantes e amigos e fracassos de relações interpessoais. Algumas pessoas continuarão a afirmar que apenas colhemos os frutos das nossas escolhas profissionais, pessoais ou afectivas. Pois eu garanto que não. Pode-se passar uma vida inteira de integridade, responsabilidade civil e ética social e colher apenas amargos de boca. Quanto aos corruptos, exploradores e egocêntricos compulsivos, é vê-los a desfrutar a vida, com direito a tudo aquilo que roubaram aos demais.
Isto nem é sequer um lamento ou uma recriminação pessoal. Já há muito que me deixei disso. São apenas divagações de quem já não tem mais nada a perder. A não ser a própria vida. No vazio crescente do meu cérebro, instalou-se uma lucidez temerária. Um tratado de luz e acidez…
Não se ainda tenho tempo, mas queria partir com clareza e sem equívocos. Não estou a desempenhar um acto egoísta de auto-comiseração. Vejo com absoluta transparência o meu percurso de vida e reconheço que nasci para a mediocridade. Não me destaquei em nada, nunca fui excelente em coisa nenhuma, nem sequer sobressaí em campo algum. Um nome e um número num BI, sem história que valha a pena contar. Mulher, mãe, esposa, profissional anónima, como tantas outras neste país. Um rosto banal numa vida banal. Uma vida de estórias, sem História para recordar. Há quem nasça para a luz e quem nunca consiga sair da obscuridade. Predestinação? Sei lá eu…
A dor instalou-se na cabeça também e uma sensação de náusea invade este feixe de nervos sem aço. Sinto que vou morrer sozinha e, pela primeira vez, tenho pena. Não sinto medo, nem tão pouco terror do que se aproxima. Apenas pesar. Ninguém deveria morrer sem companhia, mesmo que se morra sozinho. Mesmo que a morte seja uma experiência solitária. Mesmo que ninguém possa morrer connosco ou por nós. Todos os seres humanos deveriam ter direito a morrer com alguém a segurar a sua mão. Um calor de afecto na frieza que trepa corpo acima.
Despeço-me pois de todos aqueles que amei e que me amaram de volta, de todos os lugares nos quais tive lampejos de felicidade, de todos os objectos que me acompanharam nos bons e maus momentos, do meu cão que me lambeu feridas no sentido literal e me sarou mazelas na solidão das minhas horas, de mim mesma, sem recriminações nem azedume. Sempre fui o melhor que consegui ser, apesar do pouco que consegui almejar.
Parto de alma lavada e espírito liberto, consciente de que tudo deve ter um fim, embora, às vezes, ele pareça chegar cedo demais. Não consegui vislumbrar o sentido da minha existência, mas, provavelmente, a existência não pressupõe sentido algum. Nós, é que temos a fatídica tentação de atribuir um sentido oculto a tudo. Provavelmente a nossa existência corresponde a um minúsculo pó cósmico de um movimento constante de fluir. Princípio e morte de constelações, planetas e pessoas. Estrelas cadentes. Meteoros incandescentes. Crateras que testemunham vidas intergalácticas.
Sinto um entorpecimento geral e um esquecimento sem riso a pedir o fecho de considerações. Chegou o momento de escrever fim no final do filme. De deixar quem assiste decidir se valeu a pena hora e meia de desfilar e desfiar de confissões e inconfidências. No meu caso, a única espectadora deste enredo, levanto-me devagar e decido correr as cortinas. Apago as luzes e saio de cena, discreta e anónima. Caminho ao encontro daquilo que me espera. Tranquila, sem lágrimas nem dores. Em paz com o mundo, mas sobretudo em paz comigo própria. Absolvida, sem o castigo do acto de contrição. Extrema bênção da sacerdotisa que finaliza em mim.


11 de Outubro de 2008