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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Balanço do 3º Encontro com Escritores da Lusofonia

Caros amigos e leitores,
no rescaldo do 3º Encontro com Escritores da Lusofonia, deixo-vos com as palavras do escritor Cabo-verdiano Filinto Elísio Silva.

1. Não será por aí que a crítica, tão necessária quão urgente, se deva impor aos dias das artes e das letras. Deste modo «apressado», não se infere a razão, nem se afirma a justiça. Impõe-se que tudo se faça límpida que nem «água da lagoa» sobre essa minha participação e a de Márcia Souto, na 3ª edição do Encontro com os Escritores da Lusofonia, organizado pelo AECODE.

2. Antes de mais, o esclarecimento de que fora um «encontro com escritores» (não necessariamente «de» escritores), alistando quem quisesse participar, aceitando quem fosse convidado e se predispusesse a assumir os encargos). Assim, inscrições abertas, foram muitos os escritores que ali se reuniram dos vários países lusófonos (não em paranóias de representação oficial), mas cada um (em seu fazer estético de língua portuguesa) a falar por si e das suas vivências. Outrossim, não em defensiva, nem em ofensiva, todos nós participámos por nossa «conta e risco» no diálogo com os nossos confrades de diversas paragens, em caso nosso, um dando autógrafos do seu nono livro e outro lançando o seu primeiro livro, aí pelas margens do Mondego.

3. O diálogo, centrado e orientado para o labor individual e as preocupações que temos tido com as edições, publicações e distribuições das nossas obras (e dos nossos confrades nesse mundo grande, cabendo todos), com momentos de trocas de textos e de afectos, que realmente, sempre que se queira e se possa (já que não se pode, embora se queira sempre, ir a todas para as gratas aprendizagens) e nunca à fugaz passarela da feira das vaidades. Estando nos circuitos e não nos esquemas, temos recusado muitos convites já que não recorremos aos apoios e patrocínios para os atender, nem temos ocasião sabática (nem suficiente vil metal para estar em tantas).

4. Entrementes, é a tertúlia e o labor das artes e das letras que nos movem. É a movida artística que nos apaixona e afina as escolhas. E é nisso que sabemos estar e pretendemos fazer, doravante com mais frequência, senão mesmo sistemática. Devotos, ascetas e peregrinos das escritas criativas. Franciscanamente, estetas. Juntos, sem lenço, nem documento, vamos por caminhos autónomos, mas convergentes, na pulsação dos nossos batimentos cardíacos e por esse caminho de pedras literárias, não em polémicas fáceis, nem em questionamentos de vulgata. O intelectual, a estas horas de opção tomada, terá de estar participante, inquieto e instigante em assaz sinfonia.

5. Voltando a Montemor-o-Velho, eis que nos agradou aprender as técnica de fazer papel e de como extrair a celulose do arroz, eis que nos encantaram os textos lidos nos três momentos, eis que ali pudemos encher a boca para falar de Manoel de Barros e de Mário Fonseca, como de Luís de Camões e de Mia Couto, eis que acolá agradecemos a oportunidade de gizar os folguedos do imaginário nosso, eis que não nos arrependemos de haver submetido à AECODE o nosso desejo de participar e de o termos feito...às custas nossas!

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Entrevista a Filinto Elísio na revista Livros & Leituras

Caros amigos e leitores,
deixo-vos aqui a entrevista dada por Filinto Elísio à revista Livros & Leituras.

Filinto Elísio Silva: " Importa incutir o hábito e o gosto pela leitura na tenra infância"


Livros & Leituras   –  Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?
Filinto ElísIo Silva – A minha vida nasceu com a escrita. O meu irmão António, que é também escritor, diz com razão que o meu pai, pelo dom de narrador, é um escritor sem livro. Depois, a minha mãe era professora primária, trazendo para mim, desde o início, o ludismo das letras. Uma espécie de Xerazade em forma de mãe. Ainda, na minha primeira infância, eu apresentava o teatrinho de crianças em que o meu papel era declamar  (…)  Irene preta/Irene boa/Irene sempre de bom humor/Imagino Irene entrando no céu (…),  de Manuel Bandeira e, mais tarde, aprendera a dizer  (…) Luísa sobe/sobe a calçada/sobe e não pode/que vai cansada (…),  de António Gedeão.
L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 
FES – Não sei se há uma fórmula sobre o fazer literário, mormente sobre o fazer poético. Paulo Leminski diz (…) Escrevo porque amanhece/ E as estrelas lá no céu/ Lembram letras no papel (…) E eu como me inscrevo nessa escrita? Antes de mais, mesmo em prosa, a poética invade todos os meus textos. Sou um pouco aquela premissa de Ferreira Gullar em como a poesia é movida por espanto, alguma coisa que você não controla. A primeira faísca poética é esfíngica, seguida de um torpor de voo, do jeito de ser livre, bem à Manoel de Barros, moda ave. Entretanto, passado esse surpreender com as coisas o texto poético entra em fase de aprimoramento, aprendiz que sou de “Alguns Toureiros”, de João Cabral e Melo Neto, já o ditame de não derramar palavras. A poesia veste-se, de sintaxe correcta, de colares semânticos e de perfumes metafóricos, a tal “roupa de ver Deus”.
L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?
FES – Aceito que sejamos uma Pátria Lato Senso, aquela vaticinada por Fernando Pessoa, sob o mando diáfano da Língua Portuguesa, uma coisa plural e bem diversa, com pátrias estrito senso, com povos de outras línguas e linguajares em português e/ou nem isso, onde os escritores, em polifonias criativas fazem distúrbios no idioma, como se vê nos deliciosos discurso poéticos de Manoel de Barros, das narrativas de Guimarães Rosa e dos tropos imagéticos de Mia Couto. O multilinguismo, projectando identidades. Eduardo Lourenço dizia que «Quantas mais línguas falamos, mais pátrias temos». É um conceito de multiculturalidade profundamente actualizado do nosso mundo global. Aceitando esse pluriverso, somos, sim, uma comunidade. Instituída a igualdade, a liberdade e a fraternidade, esbatemos sim as fronteiras de nacionalidade. Assumidos o ethos de cada cultura e a ética individual de cada autor, podemos andar juntos como lusofonia.
L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?
FES – Através de intercâmbios mais intensos. Os encontros de escritores são importantes. O diálogo dos escritores com o público, melhor dito com os públicos é imprescindível. Dentro desta língua, todos deveriam ter mais mobilidade, a começar pelos escritores.
L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldades encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?
FES – Os escritores, quando se enveredam para a publicação, vivem a angústia editorial. Não é fácil pôr um livro cá fora, nem é fácil que o mercado livreiro o absorva. Será que o livro chega ao leitor? A que leitor chegará o livro? Em Cabo Verde, embora tenhamos atingido a taxa de alfabetização de 98,1%, a política do livro e da leitura é deficiente. Faltam editoras, livrarias, bibliotecas, círculos do livro, as feiras de livro, essas coisas. Enquanto escritor, ciente desta situação, tenho andado também por outros mercados, nomeadamente o português e o brasileiro, bem como no da diáspora cabo-verdiana. Mas as dificuldades são inerentes aos desafios, já que não há opção mais edificante do que ser escritor. O meu amigo e poeta Dimas Macedo diria que um escritor não é apenas um criador que se mantém alienado do processo social. Dele se espera que seja o Sal da Terra e que ajude a reflectir sobre o projecto da sociedade em que vive.
L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?
FES – As que consequentemente enquadrariam o livro no rol dos bens da primeira necessidade e a leitura como prioridade educativa. Incutir o hábito e o gosto pela leitura na tenra infância. Fomentar a literatura infantil e juvenil. O pensamento estruturado e o espírito crítico não se formam apartados do elemento livro. Gosto de repetir a frase do intelectual brasileiro José Castilho que diz ser a incapacidade de ler uma “doença terminal da cidadania”.
L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?
FES – Nada disso. Pode desconfigurar o Universo de Guttemberg e configurar novas texturas e formatos para o livro, mas sendo expressão do bíblico e iniciático Verbo, creio que o livro veio mesmo para ficar. Estamos em tempos de coexistência e de coabitação de várias soluções tecnológicas de leitura, sob a matriz da essencialidade do livro. O meu mais recente trabalho “Me_xendo no Baú. Vasculhando o U”, em parceria com o artista plástico luso-australiano Luís Geraldes, levanta a problemática das texturas do texto. A poética pode ser inscrita no livro, nas pinturas, em tatuagens corporais, em grafites dos murais, nas declamações em DVD, nas coreografias e a grafia dos poemas pode sofrer incisões de mudança potenciando a Poïesis  (na raiz inalterável do grego ποίησις).
L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?
FES – Os dispositivos vão acrescentando novas formas de ler, como nos apresentam agora o livro digital. Esta solução introduz a facilidade de armazenamento de textos e transporte num único suporte de centenas de livros. Ainda que eu seja um bibliófilo à moda antiga e me encante ver o livro nas estantes, também aceite inovações como as propostas pela Kindle, da Amazon, e pelo Reader, da Sony. Em verdade, eu não sou contra digitalizar os meus livros, facilitando assim a sua migração para o número cada vez mais crescente de leitores electrónicos. Ademais, há o paradoxo ecológico, já que essas novas tecnologias de leitura potenciam uma diminuição no corte de árvores.
L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?
FES – Não sei. O “Do Lado de Cá da Rosa”, iniciático, muito intimista, tacteante ainda da minha liberdade e da minha subjectividade enquanto artífice do meu próprio projecto existencial, leva a minha inocência primeva. Pode, só por isso, ter interesse. Se for leitor jovem, leia “O Inferno do Riso”, o meu terceiro livro, que versa os quatro elementos primordiais em verso livre. Se for leitor, assim arrojado cultor da poesia, “Li Cores & Ad Vinhos”, meu cabalístico sétimo livro, em que ouso levar o soneto para a literatura moderna, experimentando reformatar a ideia de um certo barroquismo. Uma coisa tântrica, com ilustrações do artista plástico Mito, em tributo à era do aquário. Mas a minha vontade é convidar os leitores a ficarem atentos aos próximos trabalhos.
L&L – Que projetos literários tem para o futuro?
FES – Tenho um livro, já pronto, com um editor brasileiro, que é “Diversa Prosa de Quase Verso”. Tenho mais dois outros “Caliban Driblando Prospero em Amazónia” e “Conchas de Noé & Arcas Ostras”. Ando também a burilar um projecto maior, com o título geral “Desandares por Lisboa”. Desoficinar a poesia sempre por novos caminhos. E depois, provavelmente um romance que não sai do meu espírito de há algum tempo. Nele penso contar a dimensão afectiva das narrativas de um novo Cabo Verde.

sábado, 21 de setembro de 2013

Filinto Silva

Caros amigos e leitores,


Outro dos convidados para o 3º Encontro com Escritores da Lusofonia é o escritor Filinto Silva de Cabo Verde. 
Filinto Elísio Silva é natural da cidade da Praia, Cabo Verde. É poeta, romancista e ensaísta. Tem oito livros publicados: “Do Lado de Cá da Rosa” (poesia), “Prato do Dia” (crónica), “O Inferno do Riso” (poesia), “Das Hespérides” (fotografia, poesia e crónica), “Das Frutas Serenadas” (poesia), “Li Cores & Ad Vinhos” (poesia), “Outros Sais da Beira-Mar” (romance) e “Me_xendo no Baú.Vasculhando o U” (poesia) – e mais três outros no prelo – “Diversa Prosa de Quase Verso” (miscelânea), “Conchas de Noé & Arcas Ostras” (cantos, contos e causos) e “Caliban Driblando Próspero em Amazónia”. Foi assessor do Ministro da Cultura de Cabo Verde e professor de matemática em Boston e Somerville, nos Estados Unidos da América. Atualmente, exerce a função de Conselheiro do Primeiro-Ministro de Cabo Verde. Também é Membro da Associação dos Escritores Cabo-verdianos, membro-correspondente da Academia Cearense de Letras, da Academia Imperatrizense de Letras e Membro-Fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras.