quarta-feira, 5 de março de 2014

Retoma

Caros amigos e leitores,

como já devem ter reparado este ano ainda não me tinha estreado. Muitos afazeres profissionais e alguns contratempos familiares e de saúde não me têm permitido dedicar-me como gostaria ao blogue. Vou tentar voltar às lides com mais frequência.

Cansada de ver o José Sócrates, do alto da sua cadeira, comentar tudo e todos, como se parte da responsabilidade do estado do país não lhe coubesse em medida, lembrei-me de um conto que já escrevi há alguns anos, mas que nunca publiquei. Espero que se divirtam tanto a lê-lo como eu me diverti a escrevê-lo.


No Reino de Portugal e dos Allgarves

Era uma vez um reino muito distante, em forma de pequeno rectângulo, engolido por todos os lados, menos por um,: um outro retângulo maior e bem mais vistoso. No final da geometria, era um rectângulo sem importância de monta.
Como rei todo-poderoso, era monarca deste reino Sua Majestade El-Rei Pinócrates I. Era um rei algo bizarro que havia conquistado o trono quando todos os seus súbditos se encontram distraídos num torneio medieval de Pé-na-Bola. Forjou discretamente um édito real e, com artes de Circe, autoelegeu-se soberano. Pasmem os céus e a Terra!
O rei tinha qualidades mil: desenhava palácios inusitados a até falava a língua de Shakespeare, na versão técnica, curso intensivo tirado num fim-de-semana, entre uma inspecção aos poços do reino e uma caçada aos gambozinos. Havia apenas um senão: ninguém no reino da rainha Nunca-mais-Morres entendia um só vocábulo de tão original linguarejar… Ofendido com tamanha iliteracia da ralé, vociferava que se consultassem os doutos pergaminhos. E enquanto isso o seu nariz crescia.
O monarca travava guerras sangrentas com éditos mil contra a burocracia vigente e decretou, sem mais delongas, uma carta magna, pomposamente apelidada de Simplex. Havia apenas um problema: insignificante, é claro. Quem pretendia jogar por esta cartilha, deparava-se com manuscritos tais que todos decidiram mudar-lhe o nome para Complex. E o nariz ia crescendo.
Era um suserano ambicioso que tinha em mente incentivar as artes e ofícios do seu território. Na Rua dos Onzeneiros, orgulhava-se de desfilar com o seu séquito real. As aias e as meretrizes bem diziam que o rei ia nu, mas os espelhos do reino haviam sido todos estilhaçados. Ordem de Sua Alteza Real, Pinócrates I. Lembrava-se bem da história da Branca de Neve e da sua tenebrosa madrasta. Não, nem pensar! Este rei não queria cá desses feitiços. Pozinhos mágicos, só os seus, que mandava ali era ele, pois então! A ralé bem mendigava uma esmolita, clamando, de quando em vez, numa voz ténue e medrosa, por justiça. Injuriavam os Mouros, os Castelhanos e os Ianques, culpavam o Tesoureriro-mor, mas lá continuavam, obedientemente a laborar nos terrenos do reino. O rei, do alto da sua tribuna, vociferava: era um incompreendido! Se gastasse o erário régio a ajudar os pobres dos Onzeneiros, como poderia ele acudir aos necessitados? Ele tinha uma corte para sustentar. Uma «fora-de-praia» aqui, outra «fora-de-praia» acoli, numa ilha de qualquer rei sapiente, qualquer rei, que se preze, tem que ter! E lá ia mandando os escribas registar exactamente o contrário. E o nariz sempre a crescer.
Sua Alteza Real habitava num faustoso palácio, conquistado com ardis mercantices e sábio uso dos impostos do Terceiro Estado. Sonhava ser Robim dos Bosques e acabara sendo Xerife de Nottingham! Com os dobrões de ouro, sonegados a fio de espada, vivia rodeado de convivas do reino da Rainha Nunca-mais-Morres. Eram Bretões expeditos, nobremente convidados para explorar os domínios dos outrora fielmente aliados. Havia portos livres de impostos e livre circulação de pessoas e carruagens. Os comparsas deste rei eram todos detentores de magníficos castelos, cheios de sacos azuis do vil metal. Escondiam-nos tão bem escondidos que nem o Rei Pinócrates I sabia bem o quanto os cofres reais eram saqueados.
Mas sempre ia vociferando que era preciso apertar o cinto, e o Zé Povinho, que já nem cinto tinha, agarrava-se aos andrajos que trazia, rotos e puídos, não vislumbrava pão com que dar forma aos ossos proeminentes. E o nariz do rei continuava a crescer…
Do alto do seu palácio de Belém, qual redentor do mundo, mirava sobranceiro o seu reino, a perder de vista. O rei usava lupa de aumentar em segredo, mas isso, ninguém sabia. Havia apenas um pequeno território insular que o preocupava pois constava que um súbdito seu se arrogava o título de Rei do Entrudo. Descaramento só punível com cem chicotadas. Castigo eternamente adiado, pois os algozes eram anões ao pé do gigante Adamastor, que vomitava fogo ao mínimo sinal de que o seu território estava ameaçado. E fazia sinais de fumo numa língua admirável e ainda mais incompreensível do que aquela que o rei falava.
O altivo monarca era fervoroso adepto dos reis de antigamente. Ai que saudades de uns bons açoites e de uma fogueira em praça pública! Mandaria todos os almocreves piolhosos e maldizentes ao castigo da carne. Mas os conselheiros do reino, sempre cautelosos e ciosos de não perder a cadeira, num reino no qual já houvera reis que dela caíram, com consequências nefastas, receitavam mezinhas para acalmar os ânimos.
Como ainda não tinha descoberto a fórmula certa para promulgar as leis que lhe permitissem assegurar um reinado eterno, contratava trovadores e bobos para entreterem a corte e as multidões amotinadas. Nos serões de cantigas de escárnio e maldizer, convidava reis absolutos e monarcas absolutistas para ter personalidades à altura dos seus ambiciosos projetos e personalidade irradiante. O seu mais fiel aliado, cavalgava amiúde por vales e montanhas, no seu alazão negro, de nome El Condor Pasa. Esse sim, era um rei como mandava a lei, a ordem e os bons costumes. Um reino com uma corte leal e submissa, agradecida ao grande monarca iluminado, que até cantava e dançava enquanto distribuía palhotas. Um dia, ai um dia, ainda havia de fazer o mesmo no reino da Pinocolândia! E enquanto matutava nesta estratégia, ia oferecendo ardósias com nome de um grande navegador, anunciando justiça e prosperidade para todos. Enquanto a arraia-miúda se distraía com as gravuras multicolores, o nariz do seu rei crescia e crescia.
Sua majestade não tolerava a contestação e tencionava mandar eternamente para as masmorras os inimigos do reino. Os maiores amotinados era um grupo de escribas desobedientes, que teimavam resistir, agora e sempre, ao inimigo. Era uma verdadeira praga o punhado de ratazanas que sabia ler e escrever. Difundiam campanhas negras e difamatórias de um rei que apenas tinha por missão servir! Ao exílio! Para a selva do rei aliado! Lá nunca mais abririam a boca nem pegariam na pena. Só se fosse na pena de morte. E parlamentava com os escribas, tentando convencê-los a assinar éditos reais que os condenassem ad eterno. Mas o problema era que os escribas sabiam mesmo ler e não caíam, facilmente, nos ardis de tal Pinóquio. E o seu nariz não parava de crescer!
Eis então que um dia, na província dos Allgarves, território de grandes riquezas, o maior grupo de estrangeirados, se rebelou de repente. Eram saxões fortes, arrogantes e de barba rija. Já estavam fartos que um rei desnudo ousasse comandar os seus destinos e julgar as suas acções. Mandaram chamar um enviado secreto da rainha Nunca-mais-Morres que, em menos de nada, organizou uma revolução elitista que derrubou o Rei Pinócrates I, que nem teve tempo de abrir a boca. Foi uma revolução pacífica, pois neste reino de povo que ladra mas nunca morde, o único obstáculo era mesmo o nariz do altivo monarca. Eis então que os bárbaros do norte tiveram uma brilhante ideia: convocaram lenhadores de todos os cantos do reino e, à força de valentes machadadas, deceparam o famoso apêndice. Com a madeira obtida, fizeram uma jangada de pau oco e enviaram os habitantes do reino para o mar alto, em busca de um novo reino, sem soberanos, nem súbditos. Consta que até hoje essa jangada anda à deriva, sem rei, nem lei.
Quanto ao Rei Pinócrates I, exilou-se no país do Grande Irmão e vive à grande e à americana, na sua hacienda, fortemente guardada pelos clones que teimaram em não descolar da sua sombra.
Fábula da fábula: nunca invoques Némesis em nome da governação.

Ana Paula Mabrouk
08-03-2009

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Arranja-me um emprego - crónica

Caros amigos e leitores,
pediram-me desta vez para escrever uma crónica sobre Escola, Emprego e Profissões. Esta não era fácil!
Inspirei-me em Sérgio Godinho e foi isto que saiu. Espero que gostem.

Crónica: A força das palavras
“Arranja-me um emprego” por Ana Paula Amaro



(…)
“Se eu mandasse neles 
os teus trabalhadores
 
seriam uns amores
 
greves era só
 
das seis e meia às sete
 
em frente a um cassetete
 
primeiro de Maio
 
só de quinze em quinze anos
 
feriado em Abril
 
só no dia dos enganos
 
e reivindicações
 
quanto baste ma non troppo
 
anda, bebe mais um copo
 
arranja-me um emprego
Arranja-me um emprego 
pode ser na tua empresa
 
concerteza
 
que eu dava conta do recado
 
e para ti era um sossego”
Sérgio Godinho
Quando me pediram para escrever uma crónica cujos temas eram Escola, Emprego, Profissões, a primeira coisa que me veio à mente foi esta canção de Sérgio Godinho. Numa época cujos telejornais nos entram pela casa dentro com palavras como crise, recessão, desemprego e classificações de Portugal como “lixo” e o governo insiste sempre na mesma solução – cortar direitos aos trabalhadores do estado, tendo sempre o cuidado de excluir aqueles que “prestaram um serviço de reconhecido mérito”, leia-se vulgarmente os políticos – apetece ecoar as palavras deste sábio músico. Aliás os músicos, desde os Deolinda com a canção “Parva que eu sou” até ao Boss AC com “É sexta feira” têm sabido como ninguém espelhar a situação da juventude portuguesa e a sua relação com o emprego. Neste país, em tudo cinzento, insiste-se em deprimir as massas para, mais facilmente, as poder moldar às linhas-mestre da governação. Ou deveria dizer: desgovernação? Toda a gente sabe que um dos princípios dos regimes ditatoriais é manter os seus habitantes na máxima ignorância possível para que eles não tenham a capacidade de se sublevar e de agir contra quem os oprime. A ignorância é a mãe de todos os vícios. E infelizmente neste meu país o que mais se assiste é à ascensão de pessoas ignorantes através da famosa cunha, do chico-espertismo e de esquemas “manhosos” para contornar a exigência, o rigor e o profissionalismo. Atente-se no caso dos nossos políticos e dos seus cursos da treta.
A educação de base, com rigor e exigência, é o único garante de solidez numa formação que sempre dará frutos. Na atual conjuntura económica e de crise de valores humanitários e éticos pode parecer uma perda de tempo investir na educação mas ela é o único garante de um verdadeiro sucesso consolidado. Quem for excelente naquilo que se propuser fazer, encontrará sempre um lugar. Pode demorar, pode não ser neste país conformado ao fado do “coitadinho” mas quem procurar com afinco e determinação sempre encontrará. Cabe-nos a nós professores plantar as sementes e ter a sabedoria necessária para criar as condições para o seu desenvolvimento um dia. Ser professor, nestes tempos conturbados, significa educar gente corajosa, inquieta, capaz de pensar por si própria, capaz de agir em causas que valham realmente a pena. Entristece-me quando vejo que as energias de um povo se canalizam em massa quando é preciso votar para um programa de televisão que promove gente burra e mal educada ou para receber um autocarro de uma equipa de futebol com cânticos gastos e very lights mas essas mesmas pessoas são incapazes de se mexerem para arranjar um emprego ou lutarem civicamente pelos direitos e liberdades básicas consignadas na Constituição Portuguesa. Continuamos a promover uma política de “yes men” dispostos a aguentar todas as imposições e indignidades sem contestar abertamente nem usar dos meios ao seu dispor para expulsar aqueles que impõem regras às quais são os primeiros a fugir.
Portugueses! Portuguesas! Nas palavras do nosso hino “Às armas! Às armas!” E essas armas são a educação como base de uma sociedade evoluída, capaz de se regenerar e de vencer batalhas difíceis com orgulho no nosso passado mas sobretudo no futuro que estamos, todos os dias, a construir. Fora com o pessimismo e o “desfado” nacional. Estamos aqui para vencer e, se investirmos naquilo que vale realmente a pena, seremos vencedores inquestionáveis. Sim, podemos!

“Tudo está na educação. O pêssego dantes era uma amêndoa amarga; a couve-flor não é mais do que uma couve que andou na universidade”   Mark Twain

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Apresentação do livro Da cor dos meus Olhos de Dinis Muacho

Caros amigos e leitores,
deixo-vos hoje com o texto de apresentação da obra Da cor dos meus Olhos de Dinis Muacho, obra que apresentei no dia 24 de novembro de 2013, na Aldeia Velha de Santa Margarida,Concelho de Avis.


Da cor dos meus Olhos de Dinis Muacho
Apresentação e Aldeia Velha, 24 novembro 2013

Em primeiro lugar quero agradecer ao escritor Dinis Muacho o convite que me foi endereçado para efetuar a apresentação deste seu livro de sonetos nesta que é a sua terra natal. Agradeço também ao outro elemento da mesa, o Dr José Coelho, prefaciador do livro, o douto contributo para a explanação e melhor conhecimento desta obra e do seu autor. A todos os presentes, o meu agradecimento pela presença nesta tarde outonal que certamente nos irá enriquecer a todos.





Da Cor dos meus Olhos é um livro de sonetos escritos entre 31 de agosto de 2004 e 25 novembro 2012. É um período de 8 anos que gira em torno dos temas apresentados desde logo no soneto de Camões que introduz esta obra: o Fogo, a Fortuna, o Amor, o Ar, a Terra e a Água. Estes seis elementos – quatro chamados de naturais e mais 2 introduzidos pelo eu poético – consubstanciam um poemário expresso em sonetos clássicos ao estilo camoniano, composto por doze versos (2 quartetos e dois tercetos), de verso decassílabo, acentuado muitas vezes na 2ª, 4ª, 6ª, 8ª e 10ª sílabas (pentâmero jâmbico) e com uma estrutura rimática que, não sendo una, muitas vezes é expressa num esquema de abba (rima interpolada) nos quartetos e cde (rima cruzada) nos tercetos.

O primeiro soneto – da Cor dos meus Olhos – que dá origem ao título do livro, é um poema emblemático, no sentido em que, assim como os olhos, espelha a alma alentejana na sua plenitude, centro e âncora deste poeta que se alimenta das suas raízes. As referências à planície, ao trigo, à terra, ao sol, ao vento, à vegetação silvestre e espontânea, que cresce nos montados, não constituem um mero adorno estético da palavra: elas brotam da alma como os cardos brotam da terra a perder de vista.

No que se refere à estrutura externa deste poemário, podemos considerar que ele se divide em sete partes de vinte poemas cada. Esse número sete apresenta-se como sendo, místico, misterioso, aritmeticamente particular e, principalmente, como sendo o número da Criação. Ao identificá-lo com a soma de 3 (Trindade Divina) mais 4 (os quatro elementos do número físico), o sete surge como a união do homem com Deus. Não será por acaso que somos imersos neste universo de transcendentalidade, uma vez que o poeta tem, entre as suas muitas paixões, uma curiosidade particular pela espiritualidade que o leva a explorar outras nuances da existência.

A primeira parte deste livro de sonetos culmina com uma ilustração que simboliza a terra. A terra é sem dúvida alguma o ponto de partida e de chegada deste poeta do signo Capricórnio, um signo ligado à terra.  De facto, é de terra ou de terras que falam os primeiros poemas. Falam-nos de Campo Maior, das suas tradições, do elogio ao povo camponês, do casario branco. O poeta vai buscar inspiração no local onde tem as suas raízes familiares para iniciar a aventura de partir. Nas suas próprias palavras “Também sou filho da terra” (pág. 19). “Estes campos cheios de azeites, de pão… e de vida” (pág. 21), “o celeiro da nação”, povoam a escrita prenhe de amor ao chão que o viu nascer. Pelo meio vamos lendo outros poemas, como o soneto dedicado ao seu irmão Paulo Muacho, a quem dedica este livro, ou poemas escritos em Évora enquanto estudantes dos terceiro e quarto anos. No entanto, estes poemas mais não são do que papoilas coloridas na seara dourada que ondula ao vento ao cair do pôr-do-sol. Regressa-se sempre à Aldeia Velha de Santa Margarida para, no silêncio do entardecer, evocar a nostalgia de amores passados, como no soneto Jóia Rara, no qual predominam sentimentos de tristeza, melancolia, ausência de esperança – “…mais um dia e eu sem te ver!” (pág 24)- pontuados, aqui e além, por referências a outros poetas como Florbela Espanca (págs. 30 e 31) ou a figuras históricas da nação – D: João I, mestre de Avis (pág. 32).

A segunda sequência inicia-se com um elogio à poesia – “És a voz minha e o meu sentimento” (p. 38) e termina, após 20 poemas, com uma ilustração da Roda da Fortuna. Esta é considerada a carta de Tarot mais complexa e pode consubstanciar uma mudança rápida. A Roda da Fortuna representa as situações de mudanças na nossa vida. Essas mudanças fazem-nos sair de uma rotina que faz com que a vida tenha pouco gosto e variedade. Ela vem trazer as novidades, as surpresas e assim traz um novo gosto para a vida. Poder-se-á afirmar que a noite se transformou em dia.
Os sonetos desta seção foram escritos entre a Aldeia Velha e Évora. A poesia simboliza a mudança: “És triste, és alegre e tens cor” (pág. 38). A esmagadora maioria dos poemas são de amor, com referência a nomes de mulheres, metamorfoseados em elementos da Natureza. Exemplos emblemáticos dessa metamorfose são os poemas Borboleta Colorida (pág. 41) e Hortência Branca (pág. 42). Fluem sentimentos como a “paixão intensa, terno desejo, carinho imenso tão reluzente” (pág. 39). Mas mesmo nesta seção continuamos a ter apontamentos relativos à imensidão do Alentejo, assim como o reforço do sentimento de solidão do eu poético – “Há uma imensidão que nos devora”, pode ler-se na página 47. Constantes são também as referências históricas às caravelas, a Camões (pág. 50) e ainda a uma viagem efetuada a São Tomé e Príncipe (pág. 54). Estamos perante uma panóplia de sentimentos regidos pelos sóis, luas e mar que fazem rodar a Roda da Fortuna.

A terceira sequência inclui poemas que foram escritos em vários lugares e encerra com a ilustração do Fogo. Ela canta o fogo que foi, evocação de um grande amor que ficou para trás. Esta pode, sem dúvida alguma, ser considerada a sequência dedicada ao amor e à paixão, motor da força anímica que parece ressuscitar – “Voltei à vida, levantei-me do jazigo” (pág.59). A sensualidade da mulher Petrarca, uma musa inspiradora que assume vários nomes, emana das linhas dos poemas e não se fica pelo amor platónico mas retrata vivamente os prazeres da paixão – “beijos loucos em correria” (pág.61) ou “olhos loucos a queimar” (pág. 66). A volúpia está patente nas referências aos seios, aos corpos nus, aos lábios carnais, aos olhos ciganos. No final, retrospetivamente, fica a certeza do eu poético que desabafa: “Esta tristeza de ser triste/ quem ma rogou?” (pág. 67). Mesmo no auge da paixão, continua a vislumbra-se as terras e as raízes alentejanas, como no poema Pedras da Anta, dedicado ao Ti Renato, guardador de cabras e analfabeto de olho azul, galã proletário ou a Ouguela, antiga cidade de Cuenca, sita na zona raiana, terra do pai do poeta.
Esta seção contém o meu poema preferido de todo o livro, O meu Poema , que poderia bem ser a súmula perfeita deste livro – “Fiz da minha vida um poema/ Da minha casa os chaparrais/Da minh’alma eternos vendavais/Dos meus olhos a flor da alfazema.” (pág. 76).

A quarta sequência termina com uma ilustração referente ao elemento Ar. O eu poético quase que afirma que vive “no ar”, sem chão, em mundos paralelos. Adivinha-se uma fase difícil, na qual é necessário recomeçar, e nada melhor para a ilustrar do que a referência à poesia de Mário Cezariny – “Ama como a estrada que começa” (pág. 80). Após acordar para a realidade nua e crua – “Acordei! Já não dormes a meu lado” (pág.80) é preciso reencontrar a razão e a alegria de viver. Os sonetos são pungentes e transmitem sentimentos de mágoas, lamento, solidão, tristeza e saudade. A alma alentejana ecoa amiúde palavras de Florbela Espanca e retoma o mote do poema inicial de Camões, no soneto intitulado Elementos (pág. 93). Esta tristeza só encontra algum bálsamo para a alma ferida no regresso a casa. Nesse contexto aparecem de novo referências a Ouguela, Elvas, Sobreira dos Lobos, entre outras. Na solidão dos lugares, o eu-poético confessa: “A noite cai e ninguém me abraça” (pág. 89).

A quinta sequência culmina com uma ilustração alusiva ao Amor, numa clara antecipação do que ainda está para vir. Nos poemas Inconstância (pág. 103)e Malditos (pág. 118), retoma-se o leit motiv desta obra com uma nova alusão aos elementos iniciais. Parece haver uma necessidade de recapitulação da matéria dada para poder avançar. A repetição mostra-se também nos ecos de Florbela, presença omnipresente neste poemário, no poema Diversidade (pág. 116).  Está é provavelmente a sequência mais diversa, com referências a Lisboa, Sobreiras dos Lobos, Fado Coimbrão, Porto, São Miguel. Mistura-se gente alentejana (gente daqui) com o último Rei de Portugal! O eu-poético indicia desnorteamento e desmultiplicação. Em todo o lado se procura e em nenhum se encontra, pois ele é Prisioneiro do Nada (pág. 114) e parece “que ando escrevendo, sem escrever nada!” (pág.120)

Na sexta sequência a ilustração final é a da Água. O eu-poético sente-se como peixe na água pois considera ter encontrado o melhor domínio da sua escrita. Mergulha numa fase mais madura, ponderada e de equilíbrio emocional e estético. Abundam poemas de amor que demonstram a vontade de voltar a acreditar no amor. Os olhos azuis, cor da água, vêm agora suceder aos olhos castanhos e verdes, que os antecederam.- “A Primavera voltou de novo viçosa” (pág. 134). O autor inspira-se noutros poetas maiores como Camões ou Pessoa e, apesar de escrever um pouco em todo o lado (Porto Santo, Coimbra, Açores), regressa às origens, Alfa e Ómega de toda a sua produção poética. E aí nas “sulidões” dos verdes campos, entre as margaridas, as azinheiras e o trigo, que encontra finalmente a sua paz interior e se reencontra consigo mesmo.

A sétima sequência, que encerra este livro de sonetos, não tem uma ilustração, o que pode, à primeira vista, parecer estranho. No entanto, esgotados que foram os seis elementos enumerados no poema de abertura, poderemos especular que a sequência final conjuga todos eles e, por conseguinte, não poderia apresentar uma única ilustração. Fica ao critério e à imaginação do leitor evocar e/ou convocar todas as imagens anteriores e sobrepô-las, de forma a constituírem uma imagem mental global com sentido. Terá o eu-poético atingido a plenitude a que vulgarmente se designa de felicidade? No poema com esse título temos a resposta – “Felicidade? Não é pr’a poetas…” (pág. 145). Paira no ar, contudo, um certo encantamento pela menina dos olhos azuis – “Oh meu amor, minha amante, minha amiga” (pág. 152). Este amor que se solta dos lábios, da voz, dos sonhos traz serenidade. É um céu sem nuvens que ilumina os campos de azinheiras. No entanto, o eu-poético já não se cinge apenas ao horizonte alentejano. Precisa de um mundo maior, de um mar com canoas que seja porto de partida para outras aventuras. É preciso soltar amarras e puxar a âncora, o que demonstra uma nova confiança no futuro.
 O último poema, intitulado Sete é um poema de amor – “Promete/Ser só por amor que se colam as bocas tontas!” (pág. 162). Seria, todavia, muito redutor não atentar no número que nos traz à memória a estrela de Salomão, onde dois triângulos se cruzam: um ascendente e outro descendente. As seis pontas, mais o ponto central, somam o sete místico, simbolizando a união do céu e da terra, do Bem e do Mal, do divino e do humano. O sete simboliza, no final de tudo, a busca da perfeição. E é com magia que este poemário termina, vincando a ideia de que o melhor ainda está para vir. Ficaremos todos à espera do melhor de Dinis Muacho e ele, certamente, não nos irá desiludir.

Ana Paula Mabrouk
24 novembro 2013

Aldeia Velha de Santa Margarida

sábado, 7 de dezembro de 2013

3ª sessão de apresentação do meu livro de poemas Paixão em 5 atos

Caros amigos e leitores,

decorreu na passada 5ª feira, dia 5 de dezembro a 3ªsessão de apresentação do meu livro de poemas Paixão em 5 atos. Desta vez teve lugar na Biblioteca de Condeixa-a-Nova, pelas 17 horas e 30 minutos.

A apresentação do livro esteve a cargo da PROF.ª HELENA ARAÚJO.

O acompanhamento musical foi feito pelo PROF. MÁRIO ALVES e pela ex-aluna da minha escola MARIANA PEDROSA.


A leitura de poemas foi efetuada pela PROF.ª ANABELA COSTA.


Teve ainda a Colaboração do Curso de Turismo da Escola Secundária Fernando Namora e a representação de um elemento do executivo camarário, Dr. Carlos Canais. A Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova teve ainda a gentileza de oferecer uma escarpiada de honra a todos os convidados.


Termino com os agradecimentos a todos os envolvidos a Mário Alves, Helena Araújo, Mariana Pedrosa, Anabela Costa (tirei os Dr. todos pois sei que não se importam), DR. Carlos Canais, Hugo e Maria do Curso de Técnico de Turismo, à Biblioteca Municipal de Condeixa-a-Nova e ao Jornal Região de Condeixa pela colaboração na sessão de apresentação do meu livro Paixão em 5 atos.

Sinto que sou uma pessoa feliz. Para além de uma sessão cheia de afetos e de intimismo ainda fui surpreendida pela oferta de um esboço a carvão replicando a minha capa e com o testemunho de um ex-aluno que muito me comoveu. Parece que afinal de contas vou deixando pérolas pelo caminho que atravesso nesta vida. Hoje senti que, de facto, tudo vale a pena. Obrigada a todos do fundo do meu coração. Beijos grandes.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Macondo de Fausto Giaccone

Caros leitores e amigos,
na passada 2ª feira estive na Mercearia de Arte (Galeria em Coimbra) para assistir à


Apresentação “Macondo – The World of Gabriel Garcia Márquez” por Fausto Giaccone.

Foi uma sessão muito interessante na qual o fotógrafo exibiu as fotografias tiradas entre 2006 e 2010 na Colômbia do "Gabito" e contou as histórias por detrás das mesmas. Foi uma pena ter tido um público tão reduzido numa Coimbra cujos círculos "intelectuais" se circunscrevem, cada um, ao seu feudo e não se misturam. Cidade velha, de mentalidades velhas....





O mundo literário de Marquez magicamente revelado pelo artista italiano Fausto Giaccone. Como Gerald Martin, o mais importante biógrafo de Márquez escreveu: "Passei quase vinte anos de minha vida pesquisando uma biografia da vida e obra de Gabriel García Márquez, um dos maiores escritores do mundo, não só em bibliotecas e arquivos, mas ao longo de estradas, rios e costas da Colômbia, tomando notas em todos os lugares que visitei. Enquanto isso, de forma totalmente independente, um outro europeu, Fausto Giaccone, criou um testemunho visual e equivalente dessas experiências, viajando também ao longo das estradas, rios e costas da Colômbia, tirando fotos em todos esses lugares que visitou. E aqui estão elas, neste maravilhoso livro. E aqui estou eu introduzi-los ao mundo”.



Fausto Giaccone nasceu na Toscana, em San Vincenzo, em 1943. Cresceu em Palermo, onde iniciou seus estudos de arquitetura que vai acabaria em Roma, para onde se mudou em 1965. O ano de 1968 com o início da revolta estudantil, marca a sua decisão de dedicar-se inteiramente à fotografia. Desde então, vive como um fotógrafo freelance dedicado principalmente à reportagem social. As suas primeiras colaborações são com periódicos, como o L'Astrolabe, Vie Nuove, Noi Donne. Na segunda parte da década de 70, trabalha em vários documentários para a televisão, em África e também na América Latina. Nos últimos anos tem trabalhado sobretudo com revistas de viagens, propondo temas por si escolhidos. Giaccone é representado pela agência Anzenberger de Viena, desde 1995. Em 1987 publicou o livro " Uma História Portuguesa", sobre o período quente da "Revolução dos Cravos ".

domingo, 1 de dezembro de 2013

Arte à Mesa

Caros amigos e leitores,

inicio hoje divulgação intensa de atividades do mês de dezembro relativas a pintura, literatura e música em Coimbra. Estão todos convidados. Por favor apareçam e contribuam para o alargamento da comunidade artística coimbrã.



O Restaurante Nacional, rua Mário Pais, 12 1º andar, Coimbra, inaugura a 30 de novembro, pelas 19h30, a 148ª edição do Arte à Mesa, com um exposição coletiva de Pintura e Fotografia - "O inverno passado foi o nosso esquecimento", patente até 28 de dezembro.
Esta coletiva integra trabalhos dos artistas: Maria da Guia Pimpão, Rui Matos, Adélia F., Victor Costa, Joaquim Baptista, Fernando Cosme, Francisco Paiva, Bráulio Figo, e numa parceria com a Mercearia de Arte, os artistas: Mariana Sampaio, João Teixeira, Sebastião Casanova, Cátia Martins e Hamilton Francisco.

Arte à Mesa é um círculo de resistência cultural, constituído por um sem número de «Amantes de Todas as Artes» voluntariamente eclético que, cruzando gastronomia e culturas, promove mostras de manifestações artísticas e encontros de trocas de ideias e saberes, em plena liberdade sem angústias no Nacional, desde 1999.

Com quase uma centena e meia de exposições realizadas, Arte à Mesa encontra-se aberta e disponível para receber e divulgar todos os Artistas que queiram exibir os seus trabalhos nas magníficas salas do Nacional.

domingo, 17 de novembro de 2013

Irene Lisboa


Caros amigos e leitores,
respondendo a um pedido do meu amigo e escritor Paulo Câmara, divulgo aqui o perfil da escritora Irene Lisboa.


Ora bem... vou lançar-vos um desafio. Comemora-se Irene Lisboa no dia 25 de novembro. Até lá (e depois disso, se quiserem) vamos publicar  uma foto, um excerto de obra, um artigo, uma opinião, um poema (o que quiserem) desta escritora esquecida. Nem mesmo os arrudenses se lembra de a ler, apesar de ter sido considerada por alguns como a única escritora inovadora do século XX português. Pelo menos nós, arrudenses, temos a obrigação de a valorizar e divulgar, não só anualmente, mas sempre. Paulo Câmara




Poetisa e ficcionista. Foi professora primária, realizou estudos de pedagogia na Suíça, França e Bélgica, tendo, neste domínio, publicado alguns estudos sob o pseudónimo de Manuel Soares. Colaborou em publicações periódicas como Presença, Sol Nascente, Seara Nova, Litoral e Cadernos de Poesia. Depois da publicação do volume de prosa 13 Contarelos , Irene Lisboa faz a sua verdadeira estreia no domínio das Letras portuguesas com a publicação das obras de poesia Um Dia e Outro Dia (1936) e Outono Havias de Vir (1937), sob o pseudónimo de João Falco. Obras acolhidas com louvor por uma parte da crítica, sobretudo aquela próxima de Seara Nova , e que inauguram, para José Gomes Ferreira, um novo molde de escrita poética feminina, levando "a poesia até às últimas consequências do desconcerto formal, dessacralizando-a , esvaziando-a de todos os rituais, sem contudo a banalizar nem tomar ares de revolucionária indómita" (p. 19), sendo que a "preferência não escondida pela gente do povo e o amor por certas pequeninas coisas" são alguns dos traços que lhe valeriam, na sua carreira literária, uma injusta indiferença por parte das casas editoras e da crítica mais conservadora. Do ponto de vista formal, a ruptura com os cânones da lírica tradicional funda-se numa poesia de rigor novo, a uma vista inadvertida, próxima da prosa ("Achaste a forma que te convinha,/a forma boa para o teu pensamento.../metrificada ou não/mas curta, emotiva,/exclamativa. /Como tu agora escreves/pensamos nós todos/infinitas vezes." (in "Outro Dia", Um Dia e Outro Dia... ); "Escrever assim... / escrever sem arte,/sem cuidado,/sem estilo,/sem nobreza,/sem lindeza.../sem maior concentração,/sem grandes pensamentos,/sem belas comparações,/não será escrever!/Mas assim me apetece,/que o entendam ou não,/que o admitam ou não,/escrever.../estender/o delgado, esfiado,/inoperante/pensamento." (in "Outro Dia" in Um Dia e Outro Dia... ), impressão corroborada pela epígrafe que abre o segundo volume de versos, Ao que vos parecer versos chamai verso e ao resto chamai prosa , e que ficaria célebre na polémica - que teve como defensores, entre outros, Adolfo Casais Monteiro - para a afirmação do verso livre em Portugal.


 A escrita confessional, a atenção a momentos e pequenos nadas do quotidiano, a observação dos mais humildes, muitas vezes contendo implicitamente uma crítica a valores burgueses, a consciência de si mesma objectivizada no confronto com um mundo inóspito, transitarão da poesia para o volume Solidão - Notas do Punho de uma Mulher , uma obra híbrida, que se aproxima do género diarístico pela inclusão de algumas datações genéricas e por um pendor introspectivo que procura desarticular as causas de um mal-estar indefinido - dir-se-ia uma menina e moça da actualidade, obsidiada por uma tristeza omnipresente e encontrando na escrita um instrumento de autoconhecimento -, apoiando-se na memória e no registo da momentaneidade, mas que se aproxima também da novelística pela transfiguração da "experiência de observação do mundo e dos outros" (retratos, cenas) em "matéria de escrita" (cf. MORÃO, Paula - prefácio a Obras de Irene Lisboa , Lisboa, Presença, 1991). Entre a obra poética e publicação destas notas inscreve-se o volume narrativo Começa uma Vida , que, continuado em Voltar Atrás para Quê? , dá sequência, agora, sob a forma de novela autobiográfica, a um discurso do eu que se auto-analisa com lucidez e melancolia, e ao intimismo auto-reflexivo e fragmentário daqueles dois outros registos. A sua bibliografia abrange ainda obras para crianças, como Uma Mão Cheia de Nada Outra de Coisa Nenhuma ou Queres Ouvir? Eu Conto - Histórias Para Maiores e Mais Pequenos se Entreterem , e colectâneas de crónicas, como O Pouco e o Muito, Esta Cidade ou Título Qualquer Serve.




 No que diz respeito ao género cronístico, também aí o "o sujeito aprende sobre si mesmo a partir da observação do mundo, alternando movimentos que o dobram sobre si com outros que, no exterior, lhe fornecem materiais de contraste. [...] As "vidas que me cercam", deste modo, têm um efeito de espelho amplificador da vida da narradora, assim posta na posição axial de quem faz parte de um tempo e de uma cidade." (cf. MORÃO, Paula - prefácio a Obras Completas de Irene Lisboa. Esta Cidade!, vol. V, Lisboa, Presença, 1995, pp. 10-11).

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