segunda-feira, 8 de abril de 2013

Exatamente iguais: Apenas diferentes

Caros amigos e leitores,

Na sequência da publicação da última crónica que escrevi para o jornal da minha escola sobre literacia (já publicado neste blogue), recupero agora outra crónica que escrevi sobre deficiência para a edição de dezembro último. Espero que gostem tanto de a ler como eu gostei de a escrever.
 
 
Nick Vujicic
 

Exatamente iguais: Apenas diferentes

Sem braços. Sem pernas. Sem problemas. Muita gente conhece o lema de vida de Nick Vujicic e os seus inspiradores vídeos disponíveis na internet. Nick, nascido sem braços nem pernas, apenas com “uma asinha de frango” como pé, como ele próprio ironicamente refere, não se deixou vencer pela adversidade. Pesca, surfa, nada, anda de barco, joga futebol e é auto-suficiente. Ele é a prova viva de que o ser humano é muito mais do que a soma das suas partes. Ter uma, ou várias deficiências, é diferente de ser-se deficiente. Existe um abismo entre estes dois verbos: um exprime a condição presente enquanto o outro define a essência. Tem-se o que a natureza ou a herança genética nos legou. É-se tudo aquilo que conseguimos ser, usando a nossa força interior e aquela vastidão que abrange o conceito de auto-superação. Obviamente não somos tudo aquilo que sonhámos ser. A vida não é uma linha reta sem imperfeições; antes um quadro abstracto, pleno de figuras geométricas. No caso dos otimistas pode ser um quadro de Kandinski; no caso dos pessimistas um grito de Münch.

Ninguém deseja ter uma deficiência para se exibir como ser extraordinário. Contudo, a escolha de como enfrentar os problemas, define-nos como pessoas.

Tenho a sorte de ter amigos chegados que são portadores de deficiência e sinto um orgulho desmedido em tê-los no meu círculo dos afetos. Seja a minha amiga Lurdes Breda, escritora inspirada de mão cheia, com livros no Plano Nacional de Leitura e na Feira de Bolonha, presença recente em vários eventos em Moçambique ou prémios literários no Brasil. Seja a minha amiga Rita, cuja alegria de viver ultrapassa largamente a sua paralisia cerebral. Aprendi com elas que não há limites para a palavra possível e que a expressão “ Não consigo” ocupa um espaço muito reduzido no seu quotidiano.

Por tudo isto, e muito mais que fica por dizer, indigna-me a falta de solidariedade para com os outros, especialmente para com as pessoas que não tiveram a sorte de nascer com capacidades físicas ou mentais, iguais às dos demais. Insultos como “És um deficiente!” deverão ser considerados apenas insultos para quem os pronuncia. Quem opta pelo uso indevido destas palavras é realmente deficiente pois falta-lhes alguma parte invisível na formação do seu carácter. São portadores de uma deficiência muito mais profunda e aterradora: Chama-se síndroma de ASNO: Ausência de Sensibilidade Notória. Por vezes, estesíndroma vem acompanhado de um outro ainda pior: o síndroma de IDIOTA – Imunodeficiência de Ignorância Obtusa e Tolice Adquirida. Para essas pessoas fica a minha expressão de pesar: ainda não se inventou uma cadeira de rodas para o preconceito ou um programa de computador para a incultura.

Todavia, como educadora tento fazer a minha parte nesta missão de todos nós. Demonstrar que, de facto, somos “Todos diferentes, todos iguais”, ou como os meus alunos do 9º ano aprenderam somos “Exatamente iguais: apenas diferentes”.

E nessa diferença reside a nossa riqueza. Sem preconceito. Sem ignorância. Sem problemas.

Casais do Campo

21 de novembro 2012

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Viver todos os dias cansa de Pedro Paixão

Caros amigos e leitores,

comecei hoje a ler o livro Viver todos os dias cansa de Pedro Paixão e recomendo vivamente.

Deixo-vos ficar um extrato:
 
"É tão estranha a sensação de não viver. De estar só à espera que aconteça (...) eu estou em stand-by. (...) Como os passageiros à espera de um outro destino naquelas salas de aeroporto, que são onde melhor se ouve a solidão de estarmos tão perdidos assim..."

in Dias de 1995

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Imperfeita Lucidez de Catarina Carvalho


No próximo dia 5 de Abril pelas 18h30, a Biblioteca Municipal de Condeixa apresentará o livro de poesia de Catarina Carvalho “Imperfeita Lucidez”.

Esta apresentação enquadra-se na cerimónia de entrega dos prémios da III Edição do Concurso de Poesia.

 

NOTA BIOGRÁFICA

Catarina Margarida da Silva Carvalho nasceu a 27 de Abril de 1978, é natural de Regueira de Pontes, concelho de Leiria.

É licenciada em solicitadoria e tem formação pós graduada em Ciências Jurídico-empresariais Aplicadas.

Desde muito cedo manifestou interesse pela literatura, nomeadamente pela poesia e pelos grandes poetas portugueses.

Ao longo dos anos tem vindo a encontrar o seu caminho na escrita, especialmente na poesia, revelando uma espontânea sensibilidade de criar e recriar os sentimentos pelas palavras.

É com alguns dos seus poemas como “Bem perto do teu sorriso” em 2009 e “Que importa a mágoa” em 2011, que Catarina Carvalho dá a conhecer ao público as suas palavras, ao lado das composições do Mestre da Guitarra Portuguesa Custódio Castelo e pela grande voz do fado, Cristina Maria.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Retoma

Caros amigos e leitores,
devido ao muito trabalho a nível profissional e a problemas de saúde familiares tenho descurado este blogue.
Deixei passar datas importantes como o Dia Internacional da Mulher, O Dia da Poesia... e tantos outros que mereciam um post.

Regressei hoje para desejar a todos uma Boa Páscoa, plena de benções e da realização dos desejos mais íntimos de cada um.

Aproveito para compartilhar a minha última crónica escrita para o jornal da escola onde trabalho sobre o tema literacia.


Que cena, meu!

Por Ana Paula Mabrouk
«Devido ao facto de vivermos numa sociedade da informação, que se começou a falar de um novo tipo de analfabetismo afectando a população que, apesar do aumento das taxas e dos anos de escolarização, evidencia incapacidades de domínio da leitura, da escrita e do cálculo, vendo por isso, diminuída a sua capacidade de participação na vida social. Este novo “analfabetismo”, dito funcional, teria a ver com aprendizagens insuficientes, mal sedimentadas e pouco utilizadas na vida.

Entende-se por literacia como a capacidade de cada indivíduo compreender e usar a informação escrita contida em vários materiais impressos, de modo a atingir os seus objectivos, a desenvolver os seus próprios conhecimentos e potencialidades e a participar activamente na sociedade. A definição de literacia vai para além da mera compreensão e descodificação de textos, para incluir um conjunto de capacidades de processamento de informação que os adultos usam na resolução de tarefas associadas com o trabalho, a vida pessoal e os contextos sociais.» in http://literaciadainformacao.web.simplesnet.pt/Literacia_da_informacao.htm


Dado que está o recado de forma politicamente correta, vamos agora ao exemplo da vida prática e à sua análise de forma politicamente incorreta.

Para quem não sabe ainda, adoro esplanadas. Há alguma coisa na cultura do exterior, em roda de uma mesa e de um café, que ilumina radicalmente o meu dia. Inventei mesmo um verbo maravilhoso para a ação de adorar o sol desta forma tão mediterrânica: lagartar. Ora, estava eu lagartando um dia destes num dos meus locais de eleição, senão quando fui ouvinte acidental de um texto deveras admirável. Um empregado de mesa dissertava com um seu colega de trabalho sobre a experiência de ter assistido a Django Libertado, filme de Quentin Tarentino, protagonizado por Jamie Foxx.

Desiluda-se quem pense que dissertava sobre a polémica da escravatura que tanto tem incomodado os EUA, país que lida muito mal com o seu passado histórico e com o presente dos outros países. Ou quem pense que o tema era a questão da violência nos filmes de Tarantino, que a mim (se calhar, só a mim) parece inofensiva face à escalada de maníacos adolescentes armados que têm dizimado escolas e universidades nos últimos anos pelo país fora. Mas isso são contas de outro rosário, ou se calhar de outra crónica futura.

Não, não era nada tão elevado. Da boca deste estudante universitário (vim a saber mais tarde) saiu um discurso que vou tentar reproduzir o mais fielmente que sou capaz. Era algo assim: «Ontem foi ver aquele filme daquele gajo negro que gramo bué. Daquele preto de filmes de ação e o caraças. Brutal, meu! Brutal! Tem umas cenas memo memo fixes. O gajo dá-lhe bué e malta curtiu …estás a ver? A garina ao meu lado ainda se meteu a mete nojo e começou a falar umas cenas maradas mas eu cá amandei-a fechar a matraca. Quem não gosta, não come, olha então! Armada em finória c’umas palavras de sete e meio. É mesmo brutal, meu! Tens que ir ver. Cenas memo do caraças!»

Nem sei memo por onde hei-de começar! Se pela análise lexical, morfológica ou ideológica…

Analisemos, em primeiro lugar, as ideias (ou a falta delas!). Perceberam alguma coisa? Eu cá, que nem me considero burra de todo, percebi que o rapaz foi ver o filme Django Libertado e que teve um desaguisado com outra espetadora. O que ele achou do filme, não sei… Brutal é um adjetivo que qualifica uma pessoa bruta, desumana, violenta ou selvagem. Não me parece que era o que o rapazola tinha em mente. Parece-me mais que ele estava a classificar o filme como maravilhoso, fantástico, bem elaborado, magnificamente filmado. Quanto à questão da classificação dos outros seres humanos, enfim, o vocabulário não melhora substancialmente. O gajo (Jamie Foxx entenda-se) não haveria de achar graça nenhuma aos epítetos negro e preto num país que cunhou a expressão “afro-americano” como a única socialmente aceitável. Quanto à garina, se era açoriana ou não, não sei, mas fechar a matraca não me parece que deva alguma coisa à elegância. Deste modo, hás-de ter muitas namoradas…Hás de. Hás de… Palavras de sete e meio, também desconheço o significado, mas, pela quantidade de dissílabos usados, devem ser todas aquelas que tenham três ou mais  sílabas. Aquelas memo difíceis, estão a ver?

No que se refere ao léxico, verifica-se uma repetição dos termos brutal, gajo, cenas, memo e esse termo tão incontornável – caraças! Ora, espremidito o discurso, o domínio vocabular deste estudante universitário (convém não esquecer) pode ser comparável ao de um dealer da margem sul lisboeta que desistiu da escola após a quarta classe tirada aos tropeções. Ai, Nuno Crato, se tu soubesses como anda a deseducação neste país…

A análise morfológica é a minha favorita, admito! Adoro o uso de “amandei-a”. Das duas, uma: ou o rapaz é possuidor de uma força hercúlea e agarrou na rapariga e arremessou-a pela sala fora ou então mandou-a calar. A conjugação verbal deve ser eu amando-a, tu amanda-la, etc. Já quanto à palavra memo deve ser o contrapeso de amandar: uma palavra ganha letras, outra perde. Isto tudo numa sequência de frases com conjunções coordenativas básicas (e, mas, que), mas com muita emoção. Veja-se a quantidade de pontos de exclamação e de interrogação?!

Para terminar tenho um recado para este estudante universitário: «Caro rapaz, deves continuar a ir ver cinema pois só te faz bem à cultura. Aconselho também ir às aulas, de vez em quando, pois pode ser que aprendas novas palavras muito úteis na tua vida futura. Um dicionário monolingue de português também dava jeito.» No entanto, como temo não ser entendida, vou traduzir: «Garino, meu: bué de filmes! Essas cenas são brutais! Aulas – estás a ver? – só um coche, ficam bem no emprego da malta, ok? Um calhamaço de palavras de sete e meio é que era do caraças!»

 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Dia de S. Valentim

Caros leitores e amigos,

por motivos pessoais e familiares tenho andado arredada deste blogue. Todavia, achei que hoje era um bom dia para recomeçar. À falta de inspiração própria, aqui fica um poema de uma amiga. Desfrutem.


E por falar em olhos
há pássaros
saudosos
pousados
na janela
da manhã
que há-de vir

Maria Mamede
in E por falar em olhos

domingo, 6 de janeiro de 2013

Vã Guarda de Miguel Barreto

 Caros amigos,
 O lançamento do livro de poesia "Vâ Guarda - autobiografia não autorizada"
de Miguel Barreto será no próximo dia 5 de Janeiro, pelas 18 horas no Mercado Negro.

 Estarão presentes, para além do autor, o Dr. João Emanuel Martins da Naia Sardo e um representante da Chiado Editora, que terão uma palavra sobre o livro e sobre o autor.
 Apareçam!

 Sinopse:

Sinopse: Poesia de vanguarda e de “vã guarda”: onomatopeias e aliterações, sensações e palavrões, epifanias e disparates, vultos e tumultos, humor e amor, Eu(s) e Deus, nada e Dada…

  “Uma autobiografia não autorizada”, vagamente inspirada em factos (sur)reais.

 Saudações poéticas,

GPA

sábado, 1 de dezembro de 2012

Passeio as palavras sem trela



Passeio as plavras
sem trela
como fossem
animais de estimação
e deixo-as correr...
livres
não são palavras apenas
mas sensações
desejos, medos, alegrias
sentidos e vivências
providas do gesto
que ao ler se adivinha
se descobre
se sonha...
mais que passear
as palavras
são elas que me passeam
por dentro e por fora
e sem pedirem licença
me possuem
corpo e alma
até ao ultimo verso
ou até ao último alento!...

Maria Mamede
in Por amor às palavras