MEUS AMIGOS E MINHAS AMIGAS:
Vamos fazer mais um esforço para tornarmos os Jogos Florais de Avis um grande evento cultural.
O que vos peço é tão simples quanto isto: ENVIEM ESTE MAIL ATODOS OS VOSSOS CONTACTOS PARA QUE ELES, FAZENDO O MESMO, TORNEM POSSÍVEL UMA CORRENTE QUE CHEGUE A TODOS AQUELES QUE POSSAM ESTAR INTERESSADOS EM CONCORRER.
Para que nem precisem de abrir o anexo (que no entanto está lá) aqui vai o dito Regulamento com os agradecimentos da Amigos do Concelho de Aviz - Associação Cultural (http://www.aca.com.sapo.pt/) e do
Fernando Máximo
VIII JOGOS FLORAIS DE AVIS
REGULAMENTO
1 - Os VIII Jogos Florais de Avis são uma iniciativa da AMIGOS DO CONCELHO DE AVIZ - ASSOCIAÇÃO CULTURAL, a que podem concorrer todos os cidadãos portugueses abrangidos pelo que se dispõe no presente regulamento.
2 - Só são admitidos a concurso trabalhos inéditos, redigidos em Português e nas seguintes modalidades:
POESIA
A - QUADRA POPULAR – Tema
“O FUTURO”
Em redondilha maior, de rima ABAB, uma quadra em cada folha.
B - POESIA OBRIGADA A MOTE
Mote
QUEM SÓ VIVE DO PASSADO
E SE VÊ TÃO INSEGURO,
DÁ PRESENTE ENVENENADO
AOS QUE OLHAM O FUTURO
(Aníbal da Silva Fernandes/Avis)
Nota: não descurando outras formas de glosar o mote, daremos especial atenção ao tratamento em décimas.
PROSA
CONTO subordinado ao tema: “ O FUTURO”
(Máximo de 3 páginas, escritas em tamanho 12, a espaço e meio de entrelinhamento).
3 - De cada trabalho serão enviados três exemplares, dactilografados (à máquina ou em computador) em papel formato A4, de um só lado com caracteres de tamanho 12, sendo que apenas no conto o espaço entre linhas deverá ser de espaço e meio. Os trabalhos não poderão ser adornados com moldura ou qualquer outro adorno.
4 - Todos os trabalhos terão que ser subscritos por um pseudónimo, devendo os respectivos autores, enviar anexo a cada trabalho, um envelope fechado com o pseudónimo dactilografado no rosto, e dentro, o nome, morada e número de telefone do Autor.
5 - Cada concorrente poderá apresentar dois trabalhos por modalidade, com excepção da QUADRA onde poderão ser apresentados três trabalhos a concurso, pelo que cada um será subscrito com pseudónimo diferente. Serão desclassificados os trabalhos que não sejam inéditos, isto é, que já tenham sido apresentados noutros concursos.
6 - O prazo de remessa dos originais (data de carimbo dos correios) termina em 09 de ABRIL de 2010 e deverão ser enviados, para:
VIII Jogos Florais de AVIS
Amigos do Concelho de Aviz - Associação Cultural
Praça Serpa Pinto, Nº11
7480 - 122 AVIS
7 - O não cumprimento do estipulado no presente regulamento, anula a apreciação dos trabalhos pelo júri, de cujas decisões não cabe recurso.
8 - As classificações serão tornadas públicas em 3 de Maio de 20I0, sendo todos os concorrentes avisados por escrito.
9 - Haverá três prémios por modalidade, bem como as menções honrosas que o júri entender por bem conceder. Poderá, no entanto, deliberar a não atribuição de qualquer prémio, numa ou mais modalidades, se considerar que a qualidade dos trabalhos apresentados não é consentânea com a projecção que se pretende para esta iniciativa.
10 - A entrega de prémios aos galardoados terá lugar no dia 22 de Maio de 2010, em Avis, no Auditório Municipal Ary dos Santos, pelas 14H30’.
11 - Estes Jogos Florais ficam interditos aos elementos do Júri e demais pessoas envolvidas na organização dos mesmos.
12 - Ao Júri cabe a resolução de qualquer ocorrência que não seja abrangida pelo presente regulamento.
Nota: regulamento aprovado em reunião de Direcção da ACA-AC em 22 de Dezembro de 2009.
Com o apoio de:
Câmara Municipal de Avis
Junta de Freguesia de Avis
Este blogue pretende dar a conhecer a actividade literária da escritora Ana Paula Mabrouk e conversar sobre literatura
domingo, 28 de março de 2010
sexta-feira, 26 de março de 2010
Outro conto rural
UMBELINA
Ti Umbelina era uma dessas pobres mulheres do campo: calada" abnegada" conformada com o seu destino. Toda a vida havia trabalhado nas terras. Primeiro fora criada de servir ( mas de fora) em casa de gente rica. De lá saíra para casar com um criado, também de servir, da quinta vizinha. Nunca tinha conhecido homem antes, nem sequer tinha consentido num beijo roubado. Era mulher séria, pois então. Viveu o dia do seu casamento com aflição, sempre a pensar nos estragos que a noite lhe iria fazer. Aguentou sem um gemido, rezando a Deus para que "aquilo" não demorasse muito tempo.
Empranhou e deu à luz sete vezes, que o seu António era homem afoito. Chorou em altos prantos a morte de dois filhos recém-nascidos. Foi a única vez que a ouviram lastimar a sua má sorte. No dia seguinte aos enterros amanhou uma terra inteira que a vida continua e não se compadece com a dor de ninguém. Passou fome quando o rio galgou as margem e lhe afogou as culturas da terra que a tanto custo conseguira comprar. Pediu caldo às vizinhas para os filhos e recebeu envergonhada o dinheiro de um peditório da missa que o Sr. Padre Góis fizera em seu nome. Em segredo, que o seu António não queria esmolas de ninguém, mas não dispensava o mata-bicho logo de manhã na loja da Ti Almerinda. Para dar forças, dizia ele.
Viu partir um filho para o Ultramar e de lá regressar amargo e de mal com a vida. Viu partir outro para as Américas e por lá ficar. As três raparigas foram também à sua vida: umas melhores, outra pior. Enfim, sempre fora um pouco cabeça no ar. A mãe bem lhe dera bons conselhos, mas quê o diabo está sempre atrás da porta.
Calou os maus tratos do seu homem, pois uma mulher quando casa é para sempre. Aguentou as bebedeiras e a loiça partida e o jantar espalhado quantas vezes pela horta. Aconchegou o estômago vazio nos lençóis puídos e sonhou que era outra vez menina de servir na casa dos senhores doutores. Sonhou com o metro de meio linho que recebia sempre pelos anos para o seu enxoval. E com os belhoses de abóbora pelo Natal.
Acordou um dia de muito frio e foi esquentar o café e torrar o pão. Estranhou o seu António não se levantar e foi dar com ele mais frio do que o dia na cama de ambos. Lavou-o, vestiu-o e chamou o Chico da agência funerária. As vizinhas telefonaram aos filhos. Eles e elas vieram, beijaram a mãe, olharam o pai com desinteresse, acompanharam o enterro. E partiram. Só o Zé ficou: queria levá-la para as Américas. Credo Cruz Canhoto! ! ! Pr’ás Américas nesta idade! ...Nem pensar! Deixar a sua casinha, as suas terras, as suas coisas e partir para um país lá tão longe onde as pessoas falam de uma maneira que ela não entende!...Não, nem pensar. Queria morrer ali onde sempre tinha vivido, onde o padeiro lhe levava o pão a casa, onde a Ti Almerinda lhe fiava o mês, onde as vizinhas a socorriam numa aflição.
Nunca se dera em casa dos filhos: muitos banhos que lhe davam cabo da pele, muita roupa para vestir e despir (sem necessidade nenhuma, que ela nem cheirava mal, nem nada!...), muita ferramenta à mesa. Gostava do seu canto, do seu borralho e da sua panela de ferro. Gostava de ir à missa ao Domingo e de assar uma galinha pela Festa de Nossa Senhora da Encarnação. Gostava de assistir às fogaças e de provar um copo de água-pé pelo São Martinho.
Um dia a Senhora Doutora veio ver a Celestina ali ao lado, acamada há que tempos. Coitada ! Deu de caras com ela à saída e perguntou-lhe pela saúde. «Vai-se andando. De vez em quando uma dor por baixo da barriga.» «Passe lá pelo posto médico amanhã para eu ver isso.» Lá foi, mais para não fazer desfeita à Senhora Doutora, do que pelas dores de barriga. Foi consultada, a Senhora Doutora torceu o nariz e mandou-lhe fazer umas análises. Um. dia recebeu o recado para ir ao posto médico. Foi aflita, pois para mandá-la chamar assim, coisa boa não era. A Senhora Doutora tinha recebido o resultado das análises e havia um problemazito. Era melhor ela ser vista por um doutor das senhoras. Ela tinha qualquer coisa no útero e essa não era a especialidade dela.
– Um doutor das senhoras? Daqueles que mandam tirar a roupa? A Senhora Doutora devia estar a brincar! ...
– Ó Senhora Umbelina, posso arranjar - lhe uma médica, não precisa ser um médico.
– Ah, mesmo assim!...nesta vida só a parteira Aurora a tinha visto como Deus a deitou ao mundo. Nem o seu António para lhe fazer os filhos!... Só às escuras, como agrada a Deus.
– Mas a senhora precisa ser vista, precisa de se tratar. O Senhora Doutora, eu só sinto umas dorzitas de vez em quando...
– Por isso mesmo, ainda vai a tempo de se tratar.
A Ti Umbelina não regateou mais para não faltar ao respeito à Senhora Doutora. Mas foi para casa de credencial na mão e decisão firme de jamais abrir as pernas para quem quer que fosse. Ela era uma mulher séria!!! Calou- se bem calada e evitou daí para diante encontrar-se com a Senhora Doutora. Por respeito. Nunca mais foi ao posto médico e morreu aos 86 anos de idade na mesma cama do seu António no dia da Ascenção de Nossa Senhora ao Céu.
Conto incluído no livro Alfabeto no feminino, Mar da Palavra, 2005
Ti Umbelina era uma dessas pobres mulheres do campo: calada" abnegada" conformada com o seu destino. Toda a vida havia trabalhado nas terras. Primeiro fora criada de servir ( mas de fora) em casa de gente rica. De lá saíra para casar com um criado, também de servir, da quinta vizinha. Nunca tinha conhecido homem antes, nem sequer tinha consentido num beijo roubado. Era mulher séria, pois então. Viveu o dia do seu casamento com aflição, sempre a pensar nos estragos que a noite lhe iria fazer. Aguentou sem um gemido, rezando a Deus para que "aquilo" não demorasse muito tempo.
Empranhou e deu à luz sete vezes, que o seu António era homem afoito. Chorou em altos prantos a morte de dois filhos recém-nascidos. Foi a única vez que a ouviram lastimar a sua má sorte. No dia seguinte aos enterros amanhou uma terra inteira que a vida continua e não se compadece com a dor de ninguém. Passou fome quando o rio galgou as margem e lhe afogou as culturas da terra que a tanto custo conseguira comprar. Pediu caldo às vizinhas para os filhos e recebeu envergonhada o dinheiro de um peditório da missa que o Sr. Padre Góis fizera em seu nome. Em segredo, que o seu António não queria esmolas de ninguém, mas não dispensava o mata-bicho logo de manhã na loja da Ti Almerinda. Para dar forças, dizia ele.
Viu partir um filho para o Ultramar e de lá regressar amargo e de mal com a vida. Viu partir outro para as Américas e por lá ficar. As três raparigas foram também à sua vida: umas melhores, outra pior. Enfim, sempre fora um pouco cabeça no ar. A mãe bem lhe dera bons conselhos, mas quê o diabo está sempre atrás da porta.
Calou os maus tratos do seu homem, pois uma mulher quando casa é para sempre. Aguentou as bebedeiras e a loiça partida e o jantar espalhado quantas vezes pela horta. Aconchegou o estômago vazio nos lençóis puídos e sonhou que era outra vez menina de servir na casa dos senhores doutores. Sonhou com o metro de meio linho que recebia sempre pelos anos para o seu enxoval. E com os belhoses de abóbora pelo Natal.
Acordou um dia de muito frio e foi esquentar o café e torrar o pão. Estranhou o seu António não se levantar e foi dar com ele mais frio do que o dia na cama de ambos. Lavou-o, vestiu-o e chamou o Chico da agência funerária. As vizinhas telefonaram aos filhos. Eles e elas vieram, beijaram a mãe, olharam o pai com desinteresse, acompanharam o enterro. E partiram. Só o Zé ficou: queria levá-la para as Américas. Credo Cruz Canhoto! ! ! Pr’ás Américas nesta idade! ...Nem pensar! Deixar a sua casinha, as suas terras, as suas coisas e partir para um país lá tão longe onde as pessoas falam de uma maneira que ela não entende!...Não, nem pensar. Queria morrer ali onde sempre tinha vivido, onde o padeiro lhe levava o pão a casa, onde a Ti Almerinda lhe fiava o mês, onde as vizinhas a socorriam numa aflição.
Nunca se dera em casa dos filhos: muitos banhos que lhe davam cabo da pele, muita roupa para vestir e despir (sem necessidade nenhuma, que ela nem cheirava mal, nem nada!...), muita ferramenta à mesa. Gostava do seu canto, do seu borralho e da sua panela de ferro. Gostava de ir à missa ao Domingo e de assar uma galinha pela Festa de Nossa Senhora da Encarnação. Gostava de assistir às fogaças e de provar um copo de água-pé pelo São Martinho.
Um dia a Senhora Doutora veio ver a Celestina ali ao lado, acamada há que tempos. Coitada ! Deu de caras com ela à saída e perguntou-lhe pela saúde. «Vai-se andando. De vez em quando uma dor por baixo da barriga.» «Passe lá pelo posto médico amanhã para eu ver isso.» Lá foi, mais para não fazer desfeita à Senhora Doutora, do que pelas dores de barriga. Foi consultada, a Senhora Doutora torceu o nariz e mandou-lhe fazer umas análises. Um. dia recebeu o recado para ir ao posto médico. Foi aflita, pois para mandá-la chamar assim, coisa boa não era. A Senhora Doutora tinha recebido o resultado das análises e havia um problemazito. Era melhor ela ser vista por um doutor das senhoras. Ela tinha qualquer coisa no útero e essa não era a especialidade dela.
– Um doutor das senhoras? Daqueles que mandam tirar a roupa? A Senhora Doutora devia estar a brincar! ...
– Ó Senhora Umbelina, posso arranjar - lhe uma médica, não precisa ser um médico.
– Ah, mesmo assim!...nesta vida só a parteira Aurora a tinha visto como Deus a deitou ao mundo. Nem o seu António para lhe fazer os filhos!... Só às escuras, como agrada a Deus.
– Mas a senhora precisa ser vista, precisa de se tratar. O Senhora Doutora, eu só sinto umas dorzitas de vez em quando...
– Por isso mesmo, ainda vai a tempo de se tratar.
A Ti Umbelina não regateou mais para não faltar ao respeito à Senhora Doutora. Mas foi para casa de credencial na mão e decisão firme de jamais abrir as pernas para quem quer que fosse. Ela era uma mulher séria!!! Calou- se bem calada e evitou daí para diante encontrar-se com a Senhora Doutora. Por respeito. Nunca mais foi ao posto médico e morreu aos 86 anos de idade na mesma cama do seu António no dia da Ascenção de Nossa Senhora ao Céu.
Conto incluído no livro Alfabeto no feminino, Mar da Palavra, 2005
quinta-feira, 25 de março de 2010
Menina dos cabelos ruivos
Tinha cabelos cor-de-fogo
Laço a condizer co’a alegria
Pulava, saltava e corria.
Tinha vestido de menina-bem
Laço na cintura, cantava
Pulava, corria e saltava
Tinha botas altas modernas
Bonecos nas meias, folia
Saltava, pulava e corria
Tinha bolsinha a tiracolo
Ar de quem em casa mandava
Saltava, corria e pulava
Tinha laço, vestido e bolsinha
Botas altas, meias em perna esguia
E corria, corria, corria…
24-01-2010
terça-feira, 23 de março de 2010
Alda Espírito Santo
Morreu Alda Espírito Santo
Dado o agravamento do seu estado de saúde, fora há dias transferida para Angola, onde lhe amputaram uma perna para conter a gangrena provocada por má circulação sanguínea; mas entretanto entrara em coma.
Nascida em 1926, frequentou a Universidade de Lisboa e na Casa dos Estudantes do Império, foco do nacionalismo das antigas colónias africanas, conviveu com Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade e Marcelino dos Santos.
Deixou os livros de poemas "O Jogral das Ilhas", de 1976, e "É nosso o solo sagrado da terra", de 1978.
PÚBLICO
http://www.portalangop.co.ao/motix/pt_pt/noticias/africa/2010/2/10/Faleceu-Alda-Espirito-Santo,22162368-de57-46f8-869c-75378e9cbf4c.html
Lá no água grande
Lá no "Água Grande" a caminho da roça
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.
E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.
A política e poeta Alda Espírito Santo, que lutou pela independência de São Tomé e Príncipe, morreu hoje numa clínica de Luanda.
Alda Espírito Santo era presidente da União Nacional dos Escritores e Artistas São-Tomenses e já fora presidente da Assembleia Nacional, bem como ministra da Educação, da Cultura e da Informação.
Dado o agravamento do seu estado de saúde, fora há dias transferida para Angola, onde lhe amputaram uma perna para conter a gangrena provocada por má circulação sanguínea; mas entretanto entrara em coma.
Nascida em 1926, frequentou a Universidade de Lisboa e na Casa dos Estudantes do Império, foco do nacionalismo das antigas colónias africanas, conviveu com Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade e Marcelino dos Santos.
Deixou os livros de poemas "O Jogral das Ilhas", de 1976, e "É nosso o solo sagrado da terra", de 1978.
PÚBLICO
http://www.portalangop.co.ao/motix/pt_pt/noticias/africa/2010/2/10/Faleceu-Alda-Espirito-Santo,22162368-de57-46f8-869c-75378e9cbf4c.html
Lá no água grande
Lá no "Água Grande" a caminho da roça
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes...
Velam no capim um negrito pequenino.
E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso...
Jazem quedos no regresso para a roça.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Lá fora
Hoje fui lá fora ver a vida.
Encadear-me com o riso dos petizes
Escutar o brilho das águas-prata
Saborear o sol alto de inverno
Tactear o afecto dos demais
Inalar o vento nos canaviais.
A vida lá fora olhou para mim
Inspeccionou-me a alma fria
Perscutou-me o abandono da pele
Ouviu a tristeza muda e solitária
Cheirou-me o rosto decadente
Afagou-me a lucidez carente.
24-01-2010
Encadear-me com o riso dos petizes
Escutar o brilho das águas-prata
Saborear o sol alto de inverno
Tactear o afecto dos demais
Inalar o vento nos canaviais.
A vida lá fora olhou para mim
Inspeccionou-me a alma fria
Perscutou-me o abandono da pele
Ouviu a tristeza muda e solitária
Cheirou-me o rosto decadente
Afagou-me a lucidez carente.
24-01-2010
Poema e foto de Ana Paula Mabrouk
sexta-feira, 19 de março de 2010
Florbela ou um conto rural bem humorado
FLORBELA
«Quem tinha umas mãos de fada erá minha Florbela!» Esta era uma das suas frases preferidas. Segundo ela a sua Florbela era um modelo de virtudes. Não havia ninguém que lhe chegasse aos calcanhares. «Num era cum'essas badanecas d'oje que não sabem fazer nada. As cachopas d'oje querem é andar de cabeça no ar c'os rapazes. Uns badamerdas que nem trabalhar querem. Antigamente sim, isso é qu' eram homes. Homes ali d' enxada na mão, que sabiam fazer tudo, cumó meu falecido, que Deus o tenha. Roçaba ali uma carrada de mato enquanto o Diabo esfregaba um olho. Hoje ninguém quer trabalhar. Encostam-se ali no café a jogar a sueca e a beber cerbêja o dia interinho. Ah, mas a minha Florbela não bai na cantiga. É o bais!... O rapaz dela há-de ser gente boa. Gente boa e trabalhadeira. Não há-de ser cum' esses quinda por cima bibem à custa das mulheres.É só pôr os olhos no menino Joãozinho e na menina Zabelinha!...Até corta o coração da gente ber assim uma menina noba no 'stado qu'ela 'stá!...E atão sem precisão! Aquele menino Joãozinho é um judéu disfarçado. Inté capaz de dizer que Deus não é Deus! ! ! Inda onte telefonou à menina a pedir mais dinheiro. Mais dinheiro, a bezinha beja bem!... Só s'ela o roibar! Cum duas crianças piquenas pra gobernar e só d'ordenado dela...Sim, porqu'aquela não bê o cheiro do dinheiro dele há um ror de tempo. Diz ele qu'o dinheiro que lhe roibaram no assalto- a gente sabe bem qu' assalto, era lá do serviço e qu' ele agora tem que o pôr do bolso dele. Quant'a mim, é mais do bolso dela. Lérias, é o que é. Ah mas a minha Florbela não bai nessas cantigas. Não qu'eu 'stou d'olho. Não bou deixar um fedelho qualquer meter as mãos na minha menina. Há-de ter milhor sorte se Deus quiser e eu não morrer antes. »
Mãe coruja, continuou a sê-lo mesmo depois da cria ter batido asas e voado. A sua Florbela não era mais do que uma rapariguita enfezada que andava sempre descalça e se assoava à manga descosida da camisola. Incitada constantemente pela mãe a compor-se, lá escovava os cabelos oleosos de vez em quando e tirava a ramela dos olhos perpetuamente ensonados. Tirara a quarta classe com dificuldade, deixando-se depois ficar em casa.
Quando se faziam as grandes limpezas da Primavera em nossa casa, a ti Maria trazia-a sempre atrelada. «Sempre dá uma ajudazita» - dizia em jeito de explicação. E que grande ajuda! Encostava-se às paredes de olhos parados e mãos caídas. «Ó rapariga mexe-me esses ossos", ralhava-lhe a mãe. "Passa-me aí o esfregão, arregaça-me essas mangas!» Mas de nada serviam os ralhetes da mãe.
Um dia começou a rondar a casa um rapaz mal encarado, permanentemente despenteado, guiando uma motorizada cansada que fazia uma barulheira infernal. A mãe acautelou-a :« Ó rapariga, s'aquele biralatas pensa qu'eu criei uma filha pró bico dele, 'stá muito enganadinho. Pode já indo tirando o cabalo da chuva..» A sua Florbela parecia não ter ouvido, pois todos os dias à tardinha lá estava ela à janela esperando o seu motoqueiro andante.
Um dia ao passar por ela notei qualquer coisa de diferente. O cabelo continuava oleoso, o pé descalço, os olhos com ramela, mas havia alguma coisa. ..E de repente fez- se luz: a Florbela tinha engordado! Mas seria o que eu estava a pensar?
Um dia entra a ti Maria disparada pela casa adentro, de mãos à cabeça e «ai bezinha » na boca.
– Ai bezinha, que desgraça a minha!...", gritava sem parar.
– Que foi mulher! , perguntou a minha mãe assustada.
– Ai ó bezinha o qu 'é qu 'há-de ser de mim! ? ‘ Stou perdida , e arrepelava os cabelos.
– Aconteceu alguma desgraça?, tornou a minha mãe de olhos aflitos.
– Ai a minha Florbela!...Antes tivesse morrido.., gemia.
– Desembuche, mulher. Pelo amor de Deus!
– ‘stou sem pinga de sangue. Benho agorinha mesmo do posto médeco saber os resultados dumas análeses qu ' a minha Florbela fez, a bezinha sabe, por causa daqueles gómitos qu'ela tem tido, e aqueles desmaios qu'a a têm posto amarelinha de há uns tempos a esta parte, e bai o médeco e não me diz qu'ela 'stá prenha! ! ! Ai ó mulher o qu'é que há-de ser da minha bida!...
– A sua Florbela! ! !
– A minha Florbela.! A minha menina!...Eu tamém lhe disse qu'ele 'stava doido da moleirinha, qu'a minha Florbala não era dessas, qu'as análeses 'stavam trocadas .
– E ele ?
– E ele, aquele mal educadão, disse-me nesta cara qu'a terra há-de comer qu'era tão certo a minha Florbela 'star grábeda cumo ele não 'star!... E que me fosse preparando que daqui a 6 meses já habia de ser abó.
– E quem é o pai ?
– Ai é que 'stá. A minha Florbela não quer dizer. Eu só sei qu'ela não era menina que tibesse pr'aí namoricos cum ninguém. Só pode ser aquele filho dum cão que não paraba de rondar a minha casa. A minha menina desonrada, mulher. Ai de mim!...
- E a ti Maria nunca desconfiou de nada?
– De nada. E nem houbera. A minha Florbela andaba sempre mais eu. Pra onde eu ia, lebaba-a tamém. Só não ia pró o rio porque é muito fraquinha dos pulmões. Mas o meu Ambrósio ficaba sempre cum ela. Gosta muito dela o meu Ambrósio. Gosta dela cuma filha. Eu até lhe dizia pra ele não a 'stragar cum mimos. E agora acontece-lhe uma coisa destas! Nem 'stou em mim!
–Ó filha, vai buscar um copo com água para a Ti Maria. Atão como é que ela fez uma coisa daquelas?
– Sei lá mulher, sei lá! O meu Ambrósio diz que só se foi algum dia qu'ele 'staba dormir a sesta. Qu'ele nem é home de dormir.a sesta, mas uma bez por outra, a bezinha compreende, um home não é de ferro...Brigada ò miga
– Beba, beba que lhe faz bem.
– A bezinha habia de ber o meu Ambrósio quando soube. Ficou branco cumo a cal da parede. Até perdeu a fala, coitadinho. Ele gostaba muito da minha Florbela, já se sabe. E tamém não é pra menos. O meu Ambrósio é um santo. Ficou de tal maneira atordoado que nem bateu nela, nem nada! Só ralhou um cochichito até ela começar a chorar. Ah, mas ele diz quo motoqueiro não lhe 'scapa. Ninguém sabe de quem aquele desgraçado é filho, ah mas o meu Ambrósio trata-lhe da saúde. S’ele pensa qu ' é só andar aí a fazer filhos às filhas dos outros, pode tirar o cabalinho da chuva.
Meu dito, meu feito. O que o senhor Ambrósio disse ou fez, ninguém sabe. O que se sabe é que o rapaz embora afirmasse sempre que não tinha nada a ver com o filho da Florbela, acabou mesmo por casar com ela. Ela, de barriga inchada e cara envergonhada, enfiou um vestido curto e foi ao altar prometer aceitar da mão de Deus os filhos, blá, blá, blá. ..
Seis meses mais tarde nascia uma menina a quem foi posto o nome de Florbela, como a mãe.
Ainda hoje o Tó da motorizada, continua a afirmar não ser o pai da criança, e as más línguas comentam que não haja dúvida, atão não é que a pequena Florbela é mesmo a cara chapada do senhor Ambrósio!...
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