Por segundo año consecutivo CIRCULO POETICO ORENSANO organiza el II ENCUENTRO LUSO-GALAICO DE POESIA, fruto de la relación que Círculo mantiene con el GRUPO POETICO DE AVEIRO. En esta ocasión nos acompañarán las poetas RITA CAPUCHO y ANA PAULA MABROUK.
Este blogue pretende dar a conhecer a actividade literária da escritora Ana Paula Mabrouk e conversar sobre literatura
sexta-feira, 25 de março de 2011
terça-feira, 22 de março de 2011
1º prémio(ex-aequo) no concurso de poesia da Biblioteca Municipal de Condeixa-a-Nova
Fora de tempo
Nasci antes do tempo
Ou depois dele, quem sabe
Só sei que não sou daqui.
Estranho a paisagem dos dias
Entranho o vazio das almas
E sinto que a minha passagem
Perdeu o sentido da viagem.
Pensei no ócio das horas tardias
Aprender nas entrelinhas
Escrevendo o que falta no caminho
Completando espaços em branco
Dando sentido à longa estrada.
E no entanto, cada vez mais perdida,
Sigo fora do tempo, nos carreiros da vida.
Ana Paula Mabrouk
Este poema ficou em primeiro lugar (ex-aequo) no 1º concurso de poesia organizado pela Biblioteca Municipal de Condeixa-a-Nova. Resultado publicado no dia 21 de Março de 2011
Parabéns aos restantes premiados, com especial carinho pela ex-aluna Vélia Carvalho.
Nasci antes do tempo
Ou depois dele, quem sabe
Só sei que não sou daqui.
Estranho a paisagem dos dias
Entranho o vazio das almas
E sinto que a minha passagem
Perdeu o sentido da viagem.
Pensei no ócio das horas tardias
Aprender nas entrelinhas
Escrevendo o que falta no caminho
Completando espaços em branco
Dando sentido à longa estrada.
E no entanto, cada vez mais perdida,
Sigo fora do tempo, nos carreiros da vida.
Ana Paula Mabrouk
Este poema ficou em primeiro lugar (ex-aequo) no 1º concurso de poesia organizado pela Biblioteca Municipal de Condeixa-a-Nova. Resultado publicado no dia 21 de Março de 2011
Parabéns aos restantes premiados, com especial carinho pela ex-aluna Vélia Carvalho.
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Tempo; prémios; concursos
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Las palabras y los pajáros - prefácio em castelhano do livro os pássaros habitam a casa
Los Pájaros habitan la casa
A modo de prólogo
Hay lluvia en mis ojos ansiosos por la soledad de manos dadas. En las noches blancas de tu deseo, yo beso ojos y labios, manos y palabras, aunque a veces ellas sean negras. Los días negros de mi espera, yo pinto, con lápiz de muchos colores, el blanco de las palomas y gaviotas que habitan los jardines del paraíso. Soy tu princesa, tu estrella-del-mar, tu lectora fiel: el nombre que guardas en el pecho. Y con mi sonrisa, de raíces perfumadas, leves y etéreas, planto jazmín en tu pena. Tu poema crece como una enredadera dentro de mí. No estamos solos: tú conoces la ruta de los pájaros en el cielo y yo sé de memoria la ventana de palabras en tus ojos. Tú escribes para mí y yo sorbo cada palabra como la gota de rocío que refresca el desierto de mi espera. Tu barca ya no es negra como un pájaro ni vacía como las arenas del tiempo. Yo existo y sé que, cogidos de las manos, sabremos agarrar el pan ázimo de la poesía y multiplicarlo en alimento para el cuerpo y para el alma. Nuestro secreto es la poesía no escrita que se esconde por detrás de las cosas simples. Un gato despreocupado o un río junto al cual somos felices.
Tú llegas finalmente en un navío de rosas y yo suelto de tus manos esa barca encallada en el tiempo. Iremos por el mar adentro escribiendo un libro de besos inventados y tendremos por compañía las gaviotas que repetirán nuestros poemas de amor. Amor al universo que nuestros ojos alcanzan, al infinito que nuestros versos abarcan, a la dulzura de nuestro sentir en viaje por el mundo exterior. En el horizonte de nuestro navío, los pájaros habitan la casa. Abandono y promesa de nuevas primaveras. Levedad revestida de penas de seres que nada poseen y todo sueñan.
A modo de prólogo
Podría escribir un prólogo con inteligencia: un análisis teórico repleto de conocimientos estilísticos y términos literarios. Podría usar términos como poemario, yo-poético, binomio, dicotomía, onírico, demanda y otros tantos. Podría pero tal actitud no revelaría sapiencia. Hay libros para leer con la mente y libros para leer con los sentidos y la sensibilidad. Este es uno de ellos. En esta tentativa de prólogo, pretendo sólo compartir lecturas, afectos, palabras que vuelan como pájaros. Abro las manos y las dejo partir.
Me senté a leer un libro. No era un libro cualquiera: era un libro hecho de amaneceres y viento. Gotas escarlatas de pasión y brisa susurrada por el olor del mar. Me acarició el alma fría y me dejó en los ojos los sueños del poeta. Él me buscó en el insomnio de las noches y en la soledad de los días. Cansado de estar sólo. Construyó hábilmente palabras hechas de agua, imaginadas para transponer ausencias sucesivas. Porque la soledad duele y el silencio es difícil de soportar. Vino hasta mí el pescador de poetas, lanzando la red con redes apretadas y nudos enmarañados. Tú y yo y la certeza de la profecía: Sé que me esperas. Finalizó el poema cuya memoria de mí lo acompaña en la tinta de las letras. Su destino dejó de ser el arcén de la carretera, en el margen de la vida, para ser el de un marinero navegando a vela en el caudal de un río creciente. Me buscó incesantemente en la angustia de zarpar y yo le escribí cartas con dibujos de nubes y le susurré al oído: ¡Es urgente llegar!
Ana Paula Mabrouk
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Os pássaros habitam a casa
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
Sessão fotográfica do lançamento do livro os pássaros habitam a casa
Aqui ficam algumas fotografias da sessão de lançamento do livro os pássaros habitam a casa, no dia 5 de Fevereiro, no CETA, em Aveiro
O autor- Orlando Jorge Figueiredo, a apresentadora do livro - Ana Paula Mabrouk, o dinamizador da sessão - José Gerónimo e o editor Fernando Luís Peres Poza, da Editora El Taller del Poeta
O autor - Orlando jorge Figueiredo
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Os pássaros habitam a casa
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Prefácio do Livro os pássaros habitam a casa
As palavras e os pássaros
Poderia escrever um prefácio com inteligência: uma análise teórica repleta de conhecimentos estilísticos e termos literários. Poderia usar termos como poemário, eu-poético, binómio, dicotomia, onírico, demanda e outros tantos. Poderia mas tal atitude não revelaria sapiência. Há livros para ler com a mente e livros para ler com os sentidos e a sensibilidade. Este é um deles. Nesta tentativa de prefácio, pretendo apenas partilhar leituras, afectos, palavras que voam como pássaros. Abro as mãos e deixo-as partir.
Sentei-me a ler um livro. Não era um livro qualquer: era um livro feito de romãs e vento. Bagas escarlates de paixão e brisa soprada pela maresia. Acariciou-me a alma fria e deixou-me nos olhos os sonhos do poeta. Ele procurou-me na insónia das noites e na solidão dos dias. Cansado de estar só. Construiu habilmente palavras feitas de água, imaginadas para transpor ausências sucessivas. Porque a solidão dói e o silêncio é difícil de suportar. Veio até mim o pescador de poetas, lançando a rede com malhas apertadas e nós emaranhados. Tu e eu e a certeza da profecia: Sei que me esperas. Finalizou o poema cuja memória de mim o acompanha na tinta das letras. O seu destino deixou de ser a beira da estrada, na margem da vida, para ser o de um marinheiro velejando no caudal de um rio em crescendo. Buscou-me incessantemente na angústia de zarpar e eu escrevi-lhe cartas com desenhos de nuvens e sussurro-lhe ao ouvido: É urgente chegar!
Há chuva nos meus olhos ansiosos pela solidão de mãos dadas. Nas noites brancas do teu desejo, eu beijo olhos e lábios, mãos e palavras, mesmo que por vezes elas sejam negras. Nos dias negros da minha espera, eu pinto, com lápis de muitas cores, o branco das pombas e gaivotas que habitam os jardins do paraíso. Sou a tua princesa, a tua estrela-do-mar, a tua leitora fiel: o nome que guardas no peito. E com o meu sorriso, de raízes perfumadas, leves e etéreas, planto jasmim na tua pena. O teu poema cresce como uma trepadeira dentro de mim. Não estamos sós: tu conheces a rota dos pássaros no céu e eu sei de cor a janela de palavras nos teus olhos. Tu escreves para mim e eu sorvo cada palavra como a gota de orvalho que refresca o deserto da minha espera. A tua barca já não é negra como um pássaro nem vazia como as areias do tempo. Eu existo e sei que, de mãos dadas, saberemos agarrar o pão ázimo da poesia e multiplicá-lo em alimento para o corpo e para a alma. O nosso segredo é a poesia não escrita que se esconde por detrás das coisas simples. Um gato despreocupado ou um rio junto do qual somos felizes.
Tu chegas finalmente num navio de rosas e eu solto das tuas mãos essa barca encalhada do tempo. Iremos pelo mar adentro escrevendo um livro de beijos inventados e teremos por companhia as gaivotas que repetirão os nossos poemas de amor. Amor ao universo que os nossos olhos alcançam, ao infinito que os nossos versos abarcam, à doçura do nosso sentir em viagem pelo mundo fora. No horizonte do nosso navio, os pássaros habitam a casa. Abandono e promessa de novas primaveras. Leveza revestida de penas de seres que nada possuem e tudo sonham.
Ana Paula Mabrouk
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Os pássaros habitam a casa
sábado, 29 de janeiro de 2011
Os Pássaros habitam a casa - Orlando Jorge Figueiredo
Caros seguidos,
após um longo período de ausência, eis que regresso com boas notícias. Quero convidar todos a estarem presentes no lançamento do livro Os Pássaros habitam a casa, da autoria de Orlando Jorge Figueiredo. Este evento terá lugar no dia 5 de Fevereiro, no CETA (Círculo Experimental de Teatro de Aveiro), pelas 18 horas. Fica junto ao Canal de São Roque. Apareçam!
Nota: Escrevi o prefácio e vou apresentar o livro, o que muito me honra. Acima de tudo, gosto muito do livro e do seu autor e reconheço-lhe qualidade. Quando tudo isto se conjuga, existe uma constelação feliz!
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Os pássaros habitam a casa
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Novo livro - Vivências
Acabada de chegar do Brasil, a nova Antologia Vivências contém uma crónica minha que granjeou o 3º lugar. Aqui fica ela: profunda e intimista.
TESTAMENTO
Dizem que existem pessoas que pressentem o aproximar da morte. Algumas rezam, outras festejam os derradeiros momentos, outras ainda cometem actos extravagantes, para que possam ser lembradas. Sempre pensei que se deve morrer como se viveu em vida. Uma espécie de coerência, levada até às últimas consequências.
Dado que sempre me senti sozinha no mundo, mesmo nos momentos em que estive acompanhada, penso que este é o fim digno para mim. Nunca gostei de aborrecer os outros com os meus problemas, assim como nunca gostei de deixar os meus assuntos por resolver. Não se trata de uma atitude egocêntrica, do tipo “orgulhosamente só”, apenas um registo pessoal. O meu. Simplesmente.
Hoje sinto que esta dor que me atormenta o coração e o braço direito, há já algum tempo, se tem feito sentir de forma particularmente acutilante. Como que a dizer que o meu fim se aproxima a passos largos. Ataques convulsivos de choro irrompem do nada, num assomo que não consigo controlar. Todo o meu corpo fala comigo e me instiga a tomar medidas urgentes. Decidi escutá-lo, pois sei que a sua fragilidade nunca conseguiu acompanhar a teimosia do meu espírito. Demasiado rebelde para ser contido por um corpo de mulher que a idade não deixa esquecer.
Poderia ter ido ao hospital, numa atitude sensata e madura. Poderia ter adiado este fim precoce. Mas para quê? Os médicos mandar-me-iam levar uma vida mais calma, sem tanto trabalho, nem stress. No entanto, a minha realidade não se compadece com prescrições médicas. Então, de que me adianta ir ao hospital adiar o inevitável por mais alguns meses e, acrescentar dores, sofrimento e vergonha ao resto dos meus dias? Nada: mesmo nada. Sejamos práticos, então. Façamos um testamento e deixemos o destino, Deus ou o que for que controla a minha existência, seguir o seu rumo. Naturalmente.
O choro parou as suas vagas sucessivas de irupções de marés vivas, mas a dor aguça-se e é premente avançar neste mar revolto de final de dia.
Gostaria de deixar muitos bens materiais e palavras de conforto para todos, mas essa não sou eu. Lamento. Parece que passei a vida inteira a pedir desculpa por quem sou…Não sou rica, bem-sucedida, bonita, socialmente considerada, nada que valha a pena no Portugal de hoje. Falhei em tudo e fracassei com distinção. Sinto que nada do que fui ou fiz valerá uma linha num periódico ou num jornal nacional, em prime time. Levei uma existência medíocre entre gente pequenina. Ah Lilliput sem Guliver !
Sinto-me impotente para mudar a minha vida e perdi a esperança, de forma definitiva e irreparável. Vagueio nos dias, atormento-me nas noites. Nem coragem suficiente tive para pôr termo a esta angústia. Não quis alguma entidade superior ou apenas reinou a minha incompetência. Parece que este corpo frágil foi cativo, durante muito tempo (tempo demais, quanto a mim) do espírito caprichoso. Qual borboleta, sobreviveu a furacões, tremores de terra e ondas gigantes. Nem ventos agrestes, nem solo conturbado, nem águas profundas. Uma insustentável leveza do ser…
Comprimo o peito com a mão direita e entendo que este corpo está finalmente cansado. Anseia por um repouso sem fim. Reclama a paz a que tem direito. O descanso dos guerreiros, no final de tantas batalhas. A panaceia da alma retalhada e do rosto contorcido pelo agonizar de tanto sangue derramado em vão. Já chega! Cai a máscara, a armadura e a espada enferrujada. As sandálias empoeiradas estão gastas de tanto palmilhar…
Gravo a mensagem, temerosa de que a ceifeira não me dê tempo de terminar o meu legado. Talvez fique a meio caminho, talvez nunca chegue o manuscrito às mãos que saibam reconhecer os caracteres e pictogramas. Talvez fique a meio do desenho de um pássaro ou de um rio. Quem sabe de um molho de trigo em tempo de ceifa? Outono da vida. Final de um painel de estação que fecha um ciclo e não tem tempo de abrir outro.
Em tempos idos sempre acreditei que, se trabalhasse com afinco para conseguir aquilo que queria, um dia haveria de lá chegar. Acreditava, ingenuamente, que o meu futuro apenas dependia de mim e da minha capacidade de luta. A vida encarregou-se de demonstrar a falência da minha crença e de vergar o meu orgulho pueril. Grande parte daquilo que nos acontece na vida, nada tem a haver com a nossa aguerrida batalha diária ou sequer é fruto das nossas escolhas. Acaso, forças cósmicas, fato ou vicissitudes são partes integrantes e imprevisíveis desta nossa passagem terrestre. Não escolhemos doenças, acidentes de automóvel, falências das empresas nas quais empenhámos suor e lágrimas, mortes de familiares, amantes e amigos e fracassos de relações interpessoais. Algumas pessoas continuarão a afirmar que apenas colhemos os frutos das nossas escolhas profissionais, pessoais ou afectivas. Pois eu garanto que não. Pode-se passar uma vida inteira de integridade, responsabilidade civil e ética social e colher apenas amargos de boca. Quanto aos corruptos, exploradores e egocêntricos compulsivos, é vê-los a desfrutar a vida, com direito a tudo aquilo que roubaram aos demais.
Isto nem é sequer um lamento ou uma recriminação pessoal. Já há muito que me deixei disso. São apenas divagações de quem já não tem mais nada a perder. A não ser a própria vida. No vazio crescente do meu cérebro, instalou-se uma lucidez temerária. Um tratado de luz e acidez…
Não sei se ainda tenho tempo, mas queria partir com clareza e sem equívocos. Não estou a desempenhar um acto egoísta de auto-comiseração. Vejo com absoluta transparência o meu percurso de vida e reconheço que nasci para a mediocridade. Não me destaquei em nada, nunca fui excelente em coisa nenhuma, nem sequer sobressaí em campo algum. Um nome e um número num BI, sem história que valha a pena contar. Mulher, mãe, esposa, profissional anónima, como tantas outras neste país. Um rosto banal numa vida banal. Uma vida de estórias sem História para recordar. Há quem nasça para a luz e quem nunca consiga sair da obscuridade. Predestinação? Sei lá eu…
A dor instalou-se na cabeça também e uma sensação de náusea invade este feixe de nervos sem aço. Sinto que vou morrer sozinha e, pela primeira vez, tenho pena. Não sinto medo, nem tão pouco terror do que se aproxima. Apenas pesar. Ninguém deveria morrer sem companhia, mesmo que se morra sozinho. Mesmo que a morte seja uma experiência solitária. Mesmo que ninguém possa morrer connosco ou por nós. Todos os seres humanos deveriam ter direito a morrer com alguém a segurar a sua mão. Um calor de afecto na frieza que trepa corpo acima.
Despeço-me pois de todos aqueles que amei e que me amaram de volta, de todos os lugares nos quais tive lampejos de felicidade, de todos os objectos que me acompanharam nos bons e maus momentos, do meu cão que me lambeu feridas no sentido literal e me sarou mazelas na solidão das minhas horas, de mim mesma, sem recriminações nem azedume. Sempre fui o melhor que consegui ser, apesar do pouco que consegui almejar.
Parto de alma lavada e espírito liberto, consciente de que tudo deve ter um fim, embora, às vezes, ele pareça chegar cedo demais. Não consegui vislumbrar o sentido da minha existência, mas, provavelmente, a existência não pressupõe sentido algum. Nós é que temos a fatídica tentação de atribuir um sentido oculto a tudo. Provavelmente a nossa existência corresponde a um minúsculo pó cósmico de um movimento constante de fluir. Princípio e morte de constelações, planetas e pessoas. Estrelas cadentes. Meteoros incandescentes. Crateras que testemunham vidas intergalácticas.
Sinto um entorpecimento geral e um esquecimento sem riso a pedir o fecho de considerações. Chegou o momento de escrever fim no final do filme. De deixar quem assiste decidir se valeu a pena hora e meia de desfilar e desfiar de confissões e inconfidências. No meu caso, a única espectadora deste enredo, levanto-me devagar e decido correr as cortinas. Apago as luzes e saio de cena, discreta e anónima. Caminho ao encontro daquilo que me espera. Tranquila, sem lágrimas nem dores. Em paz com o mundo, mas sobretudo em paz comigo própria. Absolvida, sem o castigo do acto de contrição. Extrema bênção da sacerdotisa que finaliza em mim.
11 de Outubro de 2008
Ana Paula Mabrouk
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